
Firmware · Lilygo T-Dongle-C5 / M5Stack / ESP32-S3
Bruce: o firmware 'predatório' que transforma ESP32 num canivete suíço ofensivo
Resumo: o Bruce é um firmware de pentest ofensivo para placas ESP32, distribuído sob AGPL-3.0 pelo projeto BruceDevices — o nome e a identidade visual (um tubarão roxo) são a cara da proposta "predatória": um conjunto agressivo de ferramentas que roda em dezenas de placas (M5Stack Cardputer e StickC, Lilygo, placas de desenvolvimento ESP32-S3) e cobre Wi-Fi, Bluetooth, RFID/NFC, RF e até BadUSB. Nesta análise você conhece os grupos de ferramentas, as placas suportadas e os usos práticos em testes autorizados — incluindo o evil portal e o deauth que complementam a captura de senha Wi-Fi do Biscuit.
O que é
O Bruce se autodenomina "Predatory ESP32 Firmware" (firmware predatório para ESP32): uma suíte ofensiva para testes de segurança em dispositivos embarcados, criada e mantida por Pirata (bmorcelli) e uma comunidade ativa — o repositório BruceDevices/firmware passa de 6,6 mil estrelas e 3 mil commits, com dezenas de placas suportadas e atualizações frequentes. O projeto bebe diretamente de outras referências do ecossistema: o ESP32 Marauder (o pacote de ferramentas Wi-Fi/Bluetooth do justcallmekoko) inspirou os módulos wireless, e o Evil-M5Project e o M5Stick-Nemo influenciaram o conjunto de ataques.
Diferente de firmwares focados numa função só, o Bruce é uma plataforma multifunção: a mesma placa vira ferramenta de Wi-Fi, rádio Bluetooth, leitor/clonador RFID, transmissor RF e teclado USB malicioso. Ele roda em hardware barato e acessível — do T-Dongle-C5 ao M5Stack Cardputer (o formato "tecladinho" mais popular da comunidade) — e pode ser operado pela tela e botões da placa, por um menu serial ou por uma interface web embarcada.
Principais características
| Grupo | Ferramentas |
|---|---|
| Wi-Fi | Deauth (desautenticação de clientes), beacon spam, scan de redes, captura de handshake, evil portal com modo Karma (responde a qualquer sondagem como o AP legítimo) |
| Bluetooth | Scan BLE, spam de notificações (Swiftpair, Samsung, Google, Flipper), ataques a dispositivos BLE |
| RFID/NFC | Leitura, escrita e emulação de tags de 125 kHz e 13,56 MHz |
| RF (sub-GHz) | Transmissão e recepção de sinais de rádio (controles remotos, alarmes, brinquedos) com captura de dados brutos |
| Infravermelho | Envio e recepção de sinais IR (controles de TV, ar-condicionado, projetores) |
| BadUSB | Injeção de teclado — a placa vira um teclado USB que digita comandos na máquina conectada |
| Interfaces | Tela + botões, menu serial e interface web embarcada para operação remota |
| Placas | Suporte a dezenas de boards: M5Stack (Cardputer, StickC), Lilygo (T-Dongle, T-Watch), ESP32-S3 devkits, CYD e mais |
O diferencial do Bruce em relação a ferramentas especializadas é a convergência: em vez de carregar um firmware diferente para cada teste (um para Wi-Fi, outro para RFID, outro para BadUSB), o pentester flasha o Bruce uma vez e tem o conjunto inteiro no mesmo menu.
Como instalar
O primeiro passo é escolher a placa: qualquer ESP32 compatível — o T-Dongle-C5, um M5Stack Cardputer ou um devkit ESP32-S3. Em seguida, baixe a release mais recente no repositório oficial (página de versões do projeto), que publica binários prontos para as placas suportadas, e grave com o flashador da sua preferência:
esptool.py --port /dev/ttyUSB0 write_flash 0x0 bruce-<placa>.binO terceiro passo é ligar a placa e navegar pelos menus — ou, em placas com Wi-Fi, acessar a interface web embarcada para operar as ferramentas do navegador. Projetos que dependem de conteúdo adicional (páginas de evil portal, por exemplo) gravam também a partição de arquivos com os assets.
Casos de uso práticos
Evil portal para testes de conscientização. O caso de uso mais conhecido: o Bruce monta uma rede falsa com SSID clonado e serve uma página de login que pede credenciais. Em campanhas internas, é o exercício real de phishing wireless — a equipe aprende a desconfiar de páginas de login inesperadas, e o relatório mostra quantos caíram. O modo Karma amplifica o alcance: o ESP32 responde a qualquer dispositivo que procure um SSID conhecido, atraindo vítimas sem precisar clonar rede específica.
Deauth e captura de handshake. O módulo Wi-Fi dispara deauth para forçar a reconexão de clientes — o passo que gera o handshake capturado pelo Biscuit ou pelo Marauder e quebrado pelo hashcat, no fluxo completo do guia de Wi-Fi. Em testes de resiliência, o deauth também valida se a sua infraestrutura aguenta negação de serviço wireless.
Auditoria RFID/NFC. Com o módulo RFID, o Bruce lê, clona e emula tags de acesso — cartões de escritório, crachás de 125 kHz, tags de 13,56 MHz. O uso legítimo é provar que o controle de acesso físico da empresa é clonável (e convencer a diretoria a migrar para cartões com criptografia), sempre em ambiente autorizado.
BadUSB e Red Teaming. Em placas com porta USB, o modo BadUSB transforma o dispositivo num teclado que digita comandos na máquina conectada — o vetor clássico de ataques de acesso físico ("deixei um pendrive na recepção"). Para Red Teams, é a entrega de payload em ambiente com máquina física acessível; para a defesa, o argumento para bloquear dispositivos USB não autorizados.
Como se defender dos riscos
O Bruce é a demonstração de que segurança física e lógica andam juntas. Um dispositivo de US$ 20 com BadUSB e clonagem de RFID derruba a ideia de que "ninguém entra no prédio": o controle de acesso físico (crachás, catracas) precisa da mesma disciplina de autenticação que o digital. Bloqueie portas USB de estações de trabalho (allowlist de dispositivos), use cartões de acesso com criptografia e monitore tentativas de leitura/clonagem de tags.
O Wi-Fi se defende com WPA3 e PMF. Os ataques Wi-Fi do Bruce — deauth e evil portal — são mitigados pelo WPA3 (que autentica o roteador e dificulta a clonagem) e pelo Protected Management Frames (802.11w), que criptografa os quadros de gerenciamento e inviabiliza o deauth falsificado. A senha capturada em handshake ainda depende de senha forte para resistir ao hashcat.
Treine o fator humano. O evil portal ataca a atenção, não a criptografia: equipes treinadas desconfiam de páginas de login inesperadas, verificam o nome exato da rede e reportam redes duplicadas. Simule o ataque periodicamente (com autorização) e meça a melhora — o objetivo do exercício é a detecção, não a pegadinha.
Conclusão
O Bruce é o retrato do pentest embarcado moderno: um firmware único, ativo e bem mantido, que empacota num ESP32 barato o que antes exigia meia dúzia de ferramentas especializadas. Wi-Fi, Bluetooth, RFID, RF, IR e BadUSB no mesmo menu — com a identidade visual agressiva do tubarão roxo como marca registrada. Para o pentester, é o canivete suíço que sempre cabe no bolso; para o defensor, é o argumento definitivo de que a segurança não termina no firewall: ela inclui o crachá da catraca, a porta USB da estação e a rede Wi-Fi que seus funcionários conectam sem verificar.
Fontes e leituras adicionais
- BruceDevices — Bruce firmware (repositório oficial) — 04/09/2026
- Bruce — bruce.computer (site oficial) — 04/09/2026
- BruceDevices — Releases (binários prontos por placa) — 04/09/2026
- BruceDevices — Wiki do Bruce (documentação) — 04/09/2026
- BruceDevices — Patreon do projeto — 04/09/2026