
Artigo
Como descobrir a senha de qualquer Wi-Fi: do EAPOL capturado no ESP32 ao hashcat na GPU
Resumo: a senha de uma rede Wi-Fi WPA2 não é "adivinhada" em tempo real — ela é provada offline. O atacante captura o handshake EAPOL (Extensible Authentication Protocol over LAN — o aperto de mão de 4 mensagens que autentica dispositivos no WPA2) ou o PMKID, converte para um formato de hash e testa milhões de candidatos por segundo com uma GPU. Neste guia você aprende as quatro formas principais de chegar a essa captura — com uma placa de rede comum em modo monitor, com um ESP32 de bolso rodando o firmware Biscuit, com o ataque PMKID e com truques como WPS e evil twin — e como quebrar o resultado com o hashcat. E, porque toda matéria ofensiva exige a contraparte, você vai ver exatamente como se proteger de cada método.
Introdução
O Wi-Fi é a porta de entrada mais usada do mundo: roteador na parede, senha anotada na geladeira, convidado pedindo a rede — e o pentester anotando o SSID. A boa notícia para quem defende é que quebrar uma senha Wi-Fi não é um passe de mágica: é um processo de captura e força bruta offline que depende, acima de tudo, da fraqueza da senha escolhida. A má notícia é que esse processo ficou barato, portátil e automático — um dongle USB do tamanho de um pendrive, controlado pelo celular, captura o que antes exigia um notebook com placa específica.
Este artigo é o guia de referência do vídeo "Como HACKEAR qualquer Wi-Fi" do canal @digocolissi: você vai ver o caminho completo — da captura do EAPOL à revelação da senha com o hashcat — nas suas principais variações, começando pela mais clássica (placa de rede em modo monitor, sem ESP32) até o fluxo com o Lilygo T-Dongle-C5 e o firmware Biscuit. Tudo para uso autorizado: testar a própria rede, auditorias contratadas e laboratórios de estudo. Redes de terceiros, lembre-se, são protegidas por lei.
Pré-requisitos
Para acompanhar o guia completo, você vai precisar de:
- Uma forma de capturar o handshake: uma placa de rede Wi-Fi com chipset compatível com modo monitor (modelos com chipset Atheros, Realtek RTL8812AU ou Intel costumam funcionar; adaptadores USB como o Alfa AWUS036ACH são o padrão clássico) — ou um ESP32 dual-band como o Lilygo T-Dongle-C5 com o firmware Biscuit, que dispensa o notebook no momento da captura.
- Um computador com o hashcat: qualquer máquina com GPU NVIDIA, AMD ou Intel (ou CPU, mais lenta) roda o hashcat. Quanto melhor a placa de vídeo, mais rápido o teste de senhas.
- Um dicionário ou máscara de senhas: listas de senhas comuns (rockyou é a clássica) ou regras de mutação para atacar senhas derivadas de palavras.
- Ferramentas de conversão: o hcxdumptool e o hcxtools (com o conversor hcxpcapngtool), que transformam a captura bruta no formato de hash que o hashcat entende — ou o conversor online do projeto em hashcat.net/cap2hashcat.
- Conhecimento básico de rede sem fio: o que é SSID, BSSID, canal e handshake. Cada termo é explicado inline ao longo do texto.
Os quatro caminhos até a senha
Existe uma regra de ouro no ataque a Wi-Fi: ninguém "hackeia" o protocolo WPA2 — o que se ataca é a senha, e a senha só pode ser provada depois que o atacante obtém um material criptográfico capturado do ar. Abaixo apresentamos o fluxo comum a todos os métodos e, em seguida, detalhamos cada um deles.
Do ar à senha: o fluxo do ataque
Cada método abaixo ataca uma etapa diferente dessa cadeia: os três primeiros variam apenas na forma de capturar o material criptográfico — e todos terminam no mesmo hashcat. O quarto grupo abandona a criptografia e ataca o ser humano ou o hardware.
Método 1: placa de rede Wi-Fi em modo monitor — sem ESP32
O caminho clássico, que existe desde os tempos do WEP, usa uma placa de rede Wi-Fi comum em modo monitor (modo em que a placa escuta todos os quadros do ar sem precisar estar associada a uma rede). É a opção que não exige nenhum hardware especial além do adaptador: se a sua placa tem chipset compatível, o notebook já é a ferramenta.
O primeiro passo é colocar a interface em modo monitor. Com o aircrack-ng — o conjunto clássico de ferramentas de auditoria Wi-Fi, que inclui os utilitários airmon-ng, airodump-ng e aireplay-ng — isso se resume a dois comandos:
sudo airmon-ng check kill
sudo airmon-ng start wlan0O primeiro encerra os serviços que disputam a placa (NetworkManager, wpa_supplicant); o segundo cria a interface virtual wlan0mon em modo monitor. Em seguida, o airodump-ng lista as redes ao redor com canal, BSSID e força do sinal:
sudo airodump-ng wlan0monEscolhida a rede-alvo (da sua auditoria!), o terceiro passo é mirar o airodump-ng nela e registrar tudo num arquivo de captura:
sudo airodump-ng -c 6 --bssid AA:BB:CC:DD:EE:FF -w captura wlan0monA captura do handshake exige que algum cliente faça a autenticação de 4 vias com o roteador — e é aí que entra a parte mais visível do ataque: o deauth (quadro de desautenticação que expulsa um cliente da rede). O aireplay-ng envia quadros de desautenticação para forçar o dispositivo da vítima a se desconectar e se reconectar, gerando um novo handshake na frente do seu sniffer:
sudo aireplay-ng -0 5 -a AA:BB:CC:DD:EE:FF wlan0monQuando o airodump-ng exibe "WPA handshake: AA:BB:CC:DD:EE:FF" no topo da tela, a captura está completa — você tem o handshake EAPOL salvo no arquivo captura.cap. O quarto passo é a quebra, que pode ser feita com o próprio aircrack-ng contra um dicionário:
aircrack-ng captura.cap -w rockyou.txtEsse caminho funciona, mas tem limitações: o aircrack-ng só aceita o formato .cap do airodump, é single-threaded para o cálculo do PBKDF2 e não explora a GPU. Para o mesmo material de captura com todo o poder do hashcat, o fluxo moderno usa o hcxdumptool (captura PMKID e EAPOL direto em pcapng, sem precisar de airodump) e o hcxtools com o conversor hcxpcapngtool. A captura fica assim:
sudo systemctl stop NetworkManager.service
sudo systemctl stop wpa_supplicant.service
sudo hcxdumptool -i wlan0 -w dumpfile.pcapng --rds=1 -FO primeiro par de comandos para os serviços que monopolizam a placa; o hcxdumptool então varre as redes, captura PMKIDs e pares de mensagens EAPOL e salva tudo num pcapng com metadados extras (nonces, replaycount) que facilitam a conversão. Por fim, o hcxpcapngtool converte a captura para o formato de hash do hashcat:
hcxpcapngtool -o hash.hc22000 -E wordlist dumpfile.pcapng
hashcat -m 22000 hash.hc22000 wordlist.txtPronto: a mesma captura que o aircrack-ng quebraria na CPU agora roda na GPU do hashcat — milhares de vezes mais rápido. Esse é o fluxo completo sem ESP32.
Método 2: ESP32 de bolso com o firmware Biscuit
Aqui o notebook sai de cena na hora da captura. O Lilygo T-Dongle-C5 é um dongle USB do tamanho de um pendrive, baseado no chip ESP32-C5 da Espressif — um processador RISC-V de 240 MHz com Wi-Fi 6 dual-band (2,4 GHz e 5 GHz) e Bluetooth Low Energy — vendido por cerca de US$ 17. Flashando nele o firmware Biscuit, o dongle vira uma plataforma headless de pentest wireless controlada inteiramente pelo celular via Bluetooth: você escaneia redes, mira um alvo, dispara a captura de EAPOL e até o deauth — tudo pelos menus do aplicativo, sem tocar num terminal.
O fluxo prático do vídeo é este: o primeiro passo é parear o T-Dongle-C5 com o celular pelo app do Biscuit. Em seguida, no menu de Wi-Fi do app, você seleciona a rede-alvo e aciona a captura de handshake (EAPOL) — o Biscuit também captura PMKID quando o roteador expõe o hash. Se não houver cliente conectado para gerar o handshake, o próprio app dispara o deauth para forçar a reconexão. O terceiro passo é exportar o hash capturado — o Biscuit entrega o material já no formato pronto para o hashcat (o formato 22000). Por fim, você transfere o arquivo para o computador e roda o hashcat:
hashcat -m 22000 wifi.hc22000 wordlist.txtA grande vantagem desse método é a portabilidade e a discrição: o dongle custa uma fração de um adaptador Alfa com antena, cabe no bolso e é controlado pelo celular — nada de notebook aberto numa mesa com antena gigante. A limitação é o alcance: a antena cerâmica interna do T-Dongle-C5 capta redes próximas, suficiente para auditoria de ambientes internos, mas sem o alcance de um adaptador com antena externa. Para ampliar o raio de ação, os mesmos ESP32 rodam outros firmwares ofensivos — o Bruce (multiferramenta com evil portal) e o ESP32 Marauder (pacote de ataques Wi-Fi/Bluetooth) — que complementam o Biscuit em cenários diferentes.
Método 3: o ataque PMKID — sem cliente, só o roteador
O handshake exige um cliente se autenticando — o que nem sempre existe (quem nunca viu uma rede com sinal forte e zero dispositivos conectados?). O ataque PMKID resolve exatamente esse problema: ele explora um campo opcional do roteador, o Robust Security Network (RSN), que muitos access points expõem no primeiro quadro de associação.
Quando o roteador tem a opção PMKID habilitada — comum em modelos mais antigos — ele envia o PMKID no quadro, e esse valor pode ser calculado offline: PMKID = HMAC-SHA1(PMK, "PMK Name" + MAC do AP + MAC do cliente). Como o PMK deriva da senha, cada candidato de senha gera um PMKID que pode ser comparado com o capturado — sem precisar de nenhum cliente, sem deauth, sem barulho. O hcxdumptool captura PMKIDs automaticamente, e o hashcat os reconhece no mesmo modo 22000:
grep 'WPA\*01' hash.hc22000 > pmkid.hc22000
hashcat -m 22000 pmkid.hc22000 wordlist.txtO ataque é o mais silencioso de todos — não envia nenhum quadro de ataque, apenas escuta — e foi o responsável por derrubar a ideia de que "WPA2 sem cliente é seguro". A contrapartida é que depende do roteador expor o PMKID: modelos novos costumam vir com o campo desabilitado por padrão, e o WPA3 elimina o problema por completo.
Método 4: os ataques que não quebram criptografia
Nem toda senha de Wi-Fi cai por força bruta no handshake. Há uma família inteira de ataques que ataca outros elos da cadeia — o hardware, o padrão WPS ou o ser humano — e que o pentester profissional conhece tão bem quanto o hashcat:
WPS PIN. O Wi-Fi Protected Setup (WPS) foi criado para facilitar a conexão de dispositivos sem tela, mas seu PIN de 8 dígitos é matematicamente frágil: o protocolo valida o PIN em duas metades de 4 dígitos (na prática, 11.000 combinações na primeira metade e 1.000 na segunda), o que permite forçar o PIN em horas com ferramentas como o reaver ou o bully, mesmo com bloqueio por tentativas — alguns roteadores só bloqueiam a primeira metade. Desabilitar o WPS no roteador elimina o ataque por completo.
Força bruta no painel do roteador. A senha do Wi-Fi costuma viver dentro do roteador, protegida por uma senha de administrador que muitos nunca trocaram. Credenciais padrão (admin/admin, root/1234) e painéis expostos são a porta dos fundos mais simples: uma vez dentro, a senha do Wi-Fi está a um clique. A defesa é trivial — trocar a senha de administrador e desabilitar o acesso remoto ao painel.
Evil twin e captive portal. Em vez de quebrar a senha, o atacante cria uma rede falsa com o mesmo nome (SSID) da legítima — o evil twin (gêmeo do mal — uma rede clonada que imita a original) — e, quando a vítima conecta, apresenta uma página de login falsa pedindo "a senha do Wi-Fi" ou outras credenciais. Firmwares como o Bruce transformam um ESP32 barato num evil portal completo, com páginas de phishing e modo Karma (modo que responde a qualquer sondagem de rede como se fosse o AP legítimo). A defesa é a atenção humana: desconfiar de páginas de login inesperadas e verificar se a rede é a oficial (e preferir WPA3, que autentica o roteador e torna a clonagem detectável).
Wardriving. Não é um ataque, mas o motor de descoberta: percorrer regiões registrando redes, coordenadas e, em alguns casos, capturas — alimentando bases como o WiGLE (banco colaborativo de redes Wi-Fi georreferenciadas). Wardriving com o Biscuit em modo mesh vira um levantamento de alvos para as técnicas acima.
Explicação técnica: por que o ataque funciona offline
Para entender por que o hashcat resolve o problema, é preciso olhar para dentro do WPA2. A senha (passphrase) não é usada diretamente: ela passa por uma função de derivação de chave chamada PBKDF2 (Password-Based Key Derivation Function 2 — função que transforma a senha em uma chave criptográfica com 4.096 iterações de HMAC-SHA1, usando o SSID da rede como salt) e vira o PMK (Pairwise Master Key — a chave mestre de 256 bits derivada da senha). O PMK em si nunca trafega pelo ar.
Quando um dispositivo autentica, roteador e cliente executam o handshake de 4 vias (quatro mensagens EAPOL) para derivar, a partir do PMK e de dois números aleatórios (nonces), a chave de sessão PTK — e uma das mensagens carrega um MIC (Message Integrity Code — código que autentica a mensagem e prova que quem a enviou conhece o PMK). O atacante que captura esse par de mensagens tem tudo o que precisa para testar senhas: para cada candidato, ele deriva o PMK (PBKDF2), deriva o PTK com os nonces capturados e compara o MIC resultante com o capturado. Acertou o MIC, acertou a senha. Esse teste é 100% offline — por isso o atacante não precisa estar perto da rede na hora da quebra, e por isso a velocidade depende só do hardware.
O formato de hash que o hashcat usa para isso é o modo 22000, que unifica PMKID e EAPOL numa única linha de texto:
| Campo do hash 22000 | Significado |
|---|---|
| WPA*01 | Hash de PMKID (capturado do roteador, sem cliente) |
| WPA*02 | Hash de EAPOL (par de mensagens do handshake 4 vias) |
| PMKID / MIC | O valor criptográfico a ser comparado |
| MAC_AP / MAC_CLIENT | Endereços físicos do roteador e do cliente |
| ESSID | Nome da rede — usado como salt do PBKDF2 |
| NONCE_AP / EAPOL_CLIENT | Os números aleatórios do handshake |
| MESSAGEPAIR | Metadado que indica quais mensagens foram capturadas e se são "autorizadas" |
A tabela abaixo resume os quatro métodos e quando cada um vale a pena:
| Método | O que captura | Hardware mínimo | Precisa de cliente? | Silencioso? |
|---|---|---|---|---|
| aircrack-ng (modo monitor) | EAPOL (.cap) | Placa Wi-Fi com modo monitor | Sim | Não (usa deauth) |
| hcxdumptool + hashcat | EAPOL + PMKID (pcapng) | Placa Wi-Fi com modo monitor | Não (PMKID) | Sim (PMKID) |
| ESP32 + Biscuit | EAPOL + PMKID (22000) | T-Dongle-C5 | Não (PMKID) | Sim |
| WPS PIN / evil twin | PIN / credenciais | ESP32 ou notebook | Sim | Depende |
O gargalo final é sempre o mesmo: a senha. Uma senha fraca — "familia2020", o nome do cachorro, "12345678" — cai em minutos com um dicionário; uma passphrase longa e aleatória pode levar séculos mesmo com um farm de GPUs. O hashcat apenas automatiza a exaustão: dicionários, máscaras de caracteres e regras de mutação (transformar "senha" em "S3nh@!") são as três alavancas de ataque, detalhadas no guia completo do hashcat.
Como se proteger
Use WPA3. O WPA3 substitui o PSK pelo SAE (Simultaneous Authentication of Equals — um handshake baseado em troca de chaves Diffie-Hellman que não permite teste offline de senhas). Mesmo capturando o handshake inteiro, o atacante não consegue validar candidatos fora do ar — o ataque descrito neste artigo simplesmente não se aplica. Roteadores domésticos modernos suportam WPA3 ou o modo misto WPA2/WPA3; priorize o modo puro.
Senha longa é a defesa que nunca falha. A velocidade do hashcat é real, mas exponencialmente inútil contra senhas longas e aleatórias: uma passphrase de 16+ caracteres (ou uma frase com espaços, como "cadeado-vermelho-na-cozinha-2026") sai do espaço de ataque prático. Evite nomes, datas, sequências e a mania de trocar letras por números de forma previsível — o hashcat tem regras prontas exatamente para isso.
Desabilite o WPS. O PIN do WPS anula a força da senha: um atacante pode quebrar o PIN em horas e o roteador entrega a senha. Roteadores permitem desabilitar o WPS no painel de administração — faça isso hoje.
Ative o PMF e atualize o firmware. O Protected Management Frames (PMF, padrão 802.11w) criptografa os quadros de gerenciamento, dificultando a falsificação de quadros de deauth — a ferramenta que força o handshake na sua frente. E firmware atualizado corrige falhas como o PMKID exposto em modelos antigos.
Monitore o ar. Deauth floods e redes clonadas são detectáveis: ferramentas de monitoramento wireless (WIDS) alertam para rajadas de quadros de desautenticação e SSIDs duplicados. Em redes maiores, integre os alertas a um SIEM como o Wazuh (plataforma de segurança open source que correlaciona eventos de endpoints e rede) e correlacione eventos de Wi-Fi com o restante da telemetria.
Segmente e isole. Rede de convidados separada da rede principal — com senha própria — limita o estrago quando qualquer uma delas cai. Em empresas, o padrão é abandonar o PSK compartilhado e autenticar por usuário com 802.1X/EAP-TLS, onde cada pessoa tem credencial própria e o handshake nem expõe o material que o hashcat ataca.
Conclusão
Descobrir a senha de um Wi-Fi WPA2 não é invadir um cofre — é ganhar uma corrida de exaustão cujo material de prova está no ar. A captura tem vários rostos: a placa de rede clássica com aircrack-ng, o fluxo moderno do hcxdumptool para o hashcat, o dongle de bolso T-Dongle-C5 com o Biscuit controlado pelo celular, o ataque silencioso de PMKID e os ataques que nem tocam em criptografia, como WPS e evil twin. O denominador comum é a senha: o protocolo é sólido, e quem cai é sempre a escolha humana — ou o roteador mal configurado. Por isso a defesa é tão clara quanto o ataque: WPA3, passphrase longa, WPS desligado, firmware atualizado e monitoramento do ar. Saber como o ataque funciona — na prática, com as ferramentas nas mãos — é o primeiro passo para uma rede que não cai em nenhum deles.
Perguntas frequentes
É realmente possível descobrir a senha de "qualquer" Wi-Fi?
Não. O ataque descrito neste artigo funciona contra redes WPA/WPA2 com senha fraca: o material criptográfico (EAPOL ou PMKID) é capturado e testado offline contra dicionários. Redes WPA3, redes com senhas longas e aleatórias e redes empresariais com 802.1X não caem nesse método. O título provocativo esconde a verdade técnica: o que se ataca é a senha, não o protocolo.
O que é o handshake EAPOL e por que ele é capturado?
O EAPOL é o protocolo do aperto de mão de 4 mensagens que autentica um dispositivo no WPA2. Durante esse handshake, roteador e cliente trocam mensagens que provam que ambos conhecem a senha (via PMK), sem transmiti-la. Capturando essas mensagens, o atacante pode testar candidatos de senha offline: para cada candidato, deriva a chave e compara o MIC — o código de autenticação da mensagem.
Preciso de um ESP32 para capturar o handshake?
Não. Uma placa de rede Wi-Fi com chipset compatível com modo monitor já resolve: o fluxo clássico usa aircrack-ng (airmon-ng + airodump-ng + aireplay-ng) ou hcxdumptool. O ESP32 com o firmware Biscuit é uma alternativa portátil e barata — um dongle do tamanho de um pendrive controlado pelo celular — mas não é obrigatório. A única exigência real é capturar o EAPOL ou o PMKID e ter o hashcat para quebrar.
O que é o ataque PMKID e por que ele é perigoso?
O PMKID é um hash que alguns roteadores enviam no primeiro quadro da associação, derivado da senha. Como ele pode ser validado offline sem precisar de um cliente conectado — e sem enviar nenhum quadro de ataque —, o atacante só precisa escutar o ar perto do roteador. Roteadores mais novos costumam vir com o campo desabilitado, e o WPA3 elimina a falha.
Quanto tempo o hashcat leva para quebrar uma senha?
Depende da senha e da GPU. Senhas comuns de 8 caracteres caem em minutos ou horas com um dicionário + regras; o modo WPA (22000) é caro porque cada candidato exige o PBKDF2 com 4.096 iterações — uma GPU moderna testa de centenas a poucos milhares de candidatos por segundo. Uma passphrase de 16+ caracteres aleatórios está fora do espaço prático de ataque: nem um farm de GPUs resolve em tempo útil.
O WPA3 realmente resolve o problema?
Sim, para o ataque de força bruta offline. O WPA3 usa o handshake SAE, que exige interação com o roteador a cada tentativa de senha — o teste offline em massa do WPA2 não funciona. Restam ataques de engenharia social (evil twin), WPS (que também existe em WPA3) e credenciais fracas de administrador, então WPA3 elimina o método principal, mas não dispensa senha forte e configuração segura.
Fazer isso na rede de outra pessoa é crime no Brasil?
Sim. Acessar rede alheia sem autorização configura o crime de invasão de dispositivo informático (art. 154-A do Código Penal, incluído pela Lei Carolina Dieckmann) e, dependendo do caso, furto de sinal e interceptação de comunicações. Este guia é exclusivamente para auditoria autorizada: rede própria, laboratórios, testes contratados por escrito. Sem autorização, nenhum byte deve ser enviado.
Qual é a diferença entre aircrack-ng e hashcat?
O aircrack-ng é um conjunto de ferramentas de auditoria Wi-Fi: gerencia o modo monitor, captura redes, envia deauth e ainda quebra handshakes na CPU — tudo num ecossistema só. O hashcat é um quebrador de hashes universal e extremamente otimizado para GPU, que ataca centenas de tipos de hash — incluindo o WPA/WPA2 (modo 22000) — mas não captura nada do ar. Na prática, eles se complementam: o aircrack-ng (ou o Biscuit) captura, o hashcat quebra.
Fontes e leituras adicionais
- Hashcat Wiki — Cracking WPA/WPA2 with hashcat — 04/09/2026
- ZerBea — hcxdumptool (repositório oficial) — 04/09/2026
- ZerBea — hcxtools (repositório oficial) — 04/09/2026
- Aircrack-ng — Documentação oficial do aircrack-ng — 04/09/2026
- CodeHedge — Biscuit Wiki — WiFi Capture & Analysis — 04/09/2026
- Hashcat Forum — PMKID attack: new attack against WPA/WPA2 — 04/09/2026
- Kali Linux — Wireless Attacks (documentação) — 04/09/2026