Golpe usa 'passkey' como isca e rouba contas Microsoft 365 — o funcionário completa o MFA e mesmo assim perde tudo

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Golpe usa 'passkey' como isca e rouba contas Microsoft 365 — o funcionário completa o MFA e mesmo assim perde tudo

Rodrigo ColissiRodrigo Colissi
11 de setembro de 202616 min de leitura
PhishingCloudCibercrimes

Introdução

Pesquisadores do Microsoft (empresa de tecnologia responsável pelo Windows, pelo Azure e pela suíte de produtividade em nuvem) Security Research rastreiam desde maio de 2026 uma sequência que se repete em intrusões na nuvem: um sign-in incomum, o cadastro de novos métodos de autenticação, atividade intensa via Microsoft Graph (API unificada da Microsoft para acessar identidade, e-mail, arquivos e demais serviços do Microsoft 365) e downloads de arquivos de SharePoint, OneDrive e e-mail. A porta de entrada, documentada no relatório divulgado em 09/09/2026 e repercutido pelo Cyber Security News, é um phishing com isca de "passkey": a vítima é convencida a "ajustar" a configuração de passkey, MFA ou SSO e acaba entregando a sessão inteira da conta Microsoft 365 (suíte de produtividade em nuvem com e-mail, documentos, reuniões e armazenamento de arquivos).

O ponto central do ataque é incômodo: o funcionário completa a autenticação multifator (MFA) (segunda etapa de verificação além da senha, como código, biometria ou notificação) normalmente e, mesmo assim, perde tudo. Duas técnicas se repetem nos casos investigados — adversary-in-the-middle (AiTM) (intermediário que espelha o site legítimo e retransmite o tráfego entre vítima e serviço real) e device-code flow (fluxo de autenticação em que o usuário aprova um código para liberar acesso a um aplicativo) —, ambas explicadas abaixo. Vale a honestidade: não há vítimas brasileiras confirmadas até o momento, a mecânica não é nova e não se trata de uma zero-day — o diferencial está na isca de passkey e na coleta lenta e silenciosa de dados. A campanha é o complemento direto do roubo de sessão relatado no caso BigBear 2.0, que usava a mesma mecânica AiTM com páginas espelhadas para capturar a prova de que o MFA foi concluído.

A isca: "passkey" como pretexto

A campanha começa longe do teclado: o funcionário recebe uma ligação ou SMS no celular pessoal de alguém que se apresenta como suporte de TI da própria empresa. O pretexto é urgente — a configuração de passkey (método de autenticação sem senha baseado em chaves criptográficas), de MFA ou de single sign-on (SSO) (login único que autentica uma vez e dá acesso a vários serviços) precisa ser atualizada para evitar interrupção. Em seguida, a vítima é direcionada para um site que reproduz fielmente a experiência de login da Microsoft; o link chega, em muitos casos, por SMS no celular pessoal.

A isca é só o pretexto: segundo a Microsoft, o cadastro de passkey raramente é o objetivo real do atacante — a narrativa serve para guiar a vítima até as páginas falsas. Em um número menor de casos, contas já comprometidas de colegas enviam a mesma mensagem pelo Microsoft Teams, o que torna o pedido muito mais convincente: quem pede é uma identidade confiável dentro da própria organização.

Os atacantes investem em reconhecimento prévio, coletando nomes, cargos e estrutura organizacional em redes sociais profissionais, e registram domínios genéricos nos quais o nome da empresa entra como subdomínio do domínio do atacante — por exemplo, contoso.add-passkey.com. Os domínios, registrados com frequência no registrar Nicenic e operacionais em poucas horas, permitem rotacionar a infraestrutura e dificultam o bloqueio antes que o funcionário clique no link.

As duas formas de roubar a sessão

Independentemente do pretexto, o roubo da sessão segue um de dois caminhos: o phishing AiTM ou o device-code flow. Abaixo apresentamos o fluxo resumido em cinco etapas e detalhamos cada variante em seguida.

Cadeia de ataque da campanha passkey

Isca de suporteligação · SMS ·TeamsPágina falsanome da empresano domínioRoubo da sessãoAiTM: relay do logindevice-code: aprovaçãoPersistênciafatores rogue +refresh tokensExfiltraçãoGraph + coletalenta de dados

O phishing AiTM: o proxy entre a vítima e o login real

No AiTM, o site falso não captura só a senha: ele atua como proxy reverso e retransmite o login para o serviço legítimo da Microsoft em tempo real. A vítima digita e-mail e senha na página espelhada, completa o desafio de MFA normalmente — o código é validado pela própria Microsoft — e, no caminho, o atacante copia as credenciais e o token de sessão emitido pelo servidor real. É a mesma mecânica documentada no caso BigBear 2.0, operacionalizada com o framework Evilginx2. Em uma sequência observada pela Microsoft, o atacante entrou a partir de um dispositivo não gerenciado, completou o MFA e, na mesma sessão, navegou por My Sign-Ins, My Apps e pelo portal de aprovações da Microsoft por cerca de uma hora, enumerando arquivos sensíveis e aplicativos internos.

O device-code flow: a vítima entrega o acesso pela página oficial

Na segunda variante, o atacante não rouba cookie de navegador: ele convence a vítima a completar um device-code flow. Nesse fluxo legítimo do OAuth, um aplicativo exibe um código e pede que o usuário entre em uma página oficial da Microsoft para aprová-lo — é o mecanismo usado para autenticar TVs e consoles, por exemplo. A vítima digita o código na página real da Microsoft e aprova; o token de sessão é então emitido para o client controlado pelo atacante, que passa a acessar os recursos permitidos sem nunca ter tocado no navegador da vítima. Nos casos investigados, o token obtido foi reutilizado para contornar o MFA e seguir com a enumeração. Há ainda um terceiro padrão observado: o atacante entra com credenciais já comprometidas e completa o MFA com um método de aplicativo autenticador cadastrado dias antes — ou seja, com um fator que ele próprio registrou.

Por que completar o MFA não prova nada

A autenticação multifator valida que alguém respondeu ao desafio — não valida com quem o navegador está conversando. No AiTM, o desafio de MFA passa pelo proxy: a vítima acha que está falando com a Microsoft e está, só que através do atacante, que copia o resultado. No device-code, a aprovação acontece na página oficial da Microsoft, mas o token gerado é entregue ao aplicativo do atacante, não ao usuário. Nos dois casos, a prova de que o segundo fator foi concluído é capturada ou redirecionada — por isso prompts de autenticação merecem o mesmo escrutínio que um pedido de senha, especialmente depois de uma ligação ou SMS inesperado.

A persistência: fatores rogue e refresh tokens

Com a sessão nas mãos, o primeiro objetivo do atacante é transformar o acesso temporário em permanência. A Microsoft observou o cadastro de métodos de autenticação controlados pelo atacante — um número de telefone, um aplicativo autenticador ou um token OTP de software — diretamente na identidade da vítima. Esses fatores rogue (métodos de autenticação adicionados sem autorização do usuário) satisfazem desafios futuros de MFA sem a participação do funcionário.

O detalhe que derruba a resposta padrão de "trocar a senha resolve": a redefinição de senha pode não expulsar o atacante se sobrarem sessões ativas, refresh tokens (tokens que renovam a sessão sem novo login, normalmente válidos por até 90 dias) ou métodos de autenticação cadastrados por ele. Por isso a Microsoft recomenda investigar sign-ins arriscados em paralelo com cada novo fator registrado — e tratar o cadastro de método de MFA como evento de persistência, não como rotina.

A coleta silenciosa via Microsoft Graph

De posse de uma identidade válida e persistente, os atacantes usam o Microsoft Graph para mapear o que a vítima consegue alcançar: usuários, grupos, funções, aplicativos, permissões, sites, unidades, pastas, arquivos, caixas de correio e anexos. Uma requisição isolada a endpoints como /users, /groups ou /sites é rotineira em qualquer empresa — o problema é a soma: descoberta ampla seguida de recuperação de conteúdo revela uma intrusão coordenada.

A coleta em si é desenhada para passar despercebida. Os operadores miram SharePoint Online e OneDrive for Business com acesso e downloads em volume, e em alguns casos estendem a operação ao Exchange Online via API REST, para ler mensagens. O ritmo costuma ficar abaixo de 1.000 arquivos ou mensagens por hora — lento o bastante para se misturar ao uso normal da empresa e sustentável por horas ou dias. A automação transparece em detalhes como o user agent python-httpx e o uso de paginação ($top, $skiptoken, delta) para percorrer grandes conjuntos de resultados — mas, como alerta a Microsoft, um user agent isolado não é prova de nada; o contexto é que conta. A infraestrutura é rotacionada, com IPs diferentes para autenticação, reconhecimento e coleta, e parte do acesso saía de proxies anônimos.

Detecção e resposta

A detecção eficaz não trata um IP ou domínio como conclusivo — trata a sequência como um todo. A Microsoft recomenda correlacionar sinais de identidade, Microsoft Graph, SharePoint, OneDrive e Exchange, centralizando os logs em um SIEM como o Wazuh e bloqueando os domínios conhecidos na camada de DNS, com serviços como o Quad9. Os padrões que mais importam: um sign-in incomum seguido do cadastro de novo método de MFA; descoberta intensa via Graph (usuários, funções, sites, caixas de correio); acesso via proxy anônimo; download automatizado em volume; e buscas concentradas em anexos e caixas de correio. A Microsoft publicou queries de advanced hunting que isolam identidades tocando várias categorias de reconhecimento na mesma sessão — por exemplo, dez ou mais requisições cobrindo três ou mais categorias de endpoints em 30 minutos.

Em comprometimento confirmado, a resposta é: revogar sessões ativas e refresh tokens, redefinir credenciais, remover métodos de autenticação não autorizados e regras de caixa de correio criadas pelo atacante, e exigir novo cadastro seguro dos fatores. Sessões roubadas podem sobreviver a um simples password reset — o tratamento é de incidente de identidade, não de troca de senha.

Indicadores de comprometimento (IoCs)

Os domínios abaixo foram publicados pela Microsoft e pelo Cyber Security News. Estão defangados, com a entidade . no lugar dos pontos, para evitar resolução acidental; reative-os apenas em plataformas controladas de inteligência de ameaças, como MISP, VirusTotal ou seu SIEM. Como a infraestrutura é rotacionada e pode ser reatribuída, a ausência de um indicador não descarta atividade.

Domínio (defangado)Tema da isca
passkeyhelpdesk.comSuporte de passkey
secure-passkey.comSegurança de passkey
setupmypasskey.comConfiguração de passkey
add-passkey.comCadastro de passkey
integratedsso.comSSO
oktasession.comSessão de provedor de identidade
keysyncos.comSincronização de chaves
oskeysync.comSincronização de chaves
oskeysetup.comConfiguração de chaves
oskeyregister.comRegistro de chaves
syncmykey.comSincronização de chaves
myconnectkey.comConexão de chaves
oskeyconnect.comConexão de chaves
validationsetupac.comValidação e configuração de conta
portalsetuphub.comPortal de configuração

Como se proteger

MFA phishing-resistant. A única autenticação que resiste estruturalmente ao AiTM é a baseada em FIDO2 (padrão de autenticação sem senha com chaves criptográficas) — passkeys, chaves de segurança e Windows Hello for Business. A asserção criptográfica é vinculada ao domínio de origem: na página falsa, a chave se recusa a assinar. Exija esse nível de autenticação via Conditional Access para administradores e usuários sensíveis, e trate SMS e códigos como fatores phishable.

Bloqueie o device-code flow. Se não houver necessidade de negócio explícita, bloqueie os fluxos de device code e de transferência de autenticação via Conditional Access — é a forma de cortar a segunda variante do ataque na origem.

Revogue sessões e refresh tokens. Em comprometimento confirmado, revogue sessões ativas e refresh tokens, redefina credenciais, remova fatores rogue e regras de mailbox, e exija re-registro seguro dos métodos de autenticação. Trocar a senha sozinho não expulsa quem tem sessão viva ou token válido.

Audite o que roda com Microsoft Graph. Revise o consentimento de aplicativos, exija aprovação de administrador para novos consentimentos e audite service principals com permissões privilegiadas como Mail.Read, Files.Read.All e Directory.Read.All. Ative os logs de atividade do Graph e a auditoria de caixas de correio, com alertas para enumeração anômala, registro de métodos de autenticação e volume alto de downloads.

Limite dispositivos não gerenciados. Políticas que restringem o acesso de dispositivos não gerenciados a sessões web sem download ou sincronização, junto com a desativação de links de compartilhamento anônimos em SharePoint e OneDrive, reduzem a superfície de coleta.

Políticas baseadas em risco. Exija dispositivo gerenciado e conforme para Exchange, SharePoint e aplicativos com permissão de Graph, bloqueie o registro de informações de segurança em sessões de alto risco e aplique acesso condicional a sign-ins e usuários arriscados.

Treine e crie um canal de verificação. Confirmar pedidos inesperados de helpdesk por um canal interno conhecido — nunca pelo número ou link informado pelo chamador — e oferecer um canal verificado para reportar solicitações de autenticação suspeitas param o ataque antes de o acesso ser concedido. O treinamento deve cobrir golpes por voz, SMS e Teams, além do e-mail.

Conclusão

A campanha mostra que a isca evoluiu — passkey, SSO e "atualização de segurança" — mas o alvo continua o mesmo: a sessão, não a senha. Completar o MFA deixou de ser garantia de proteção quando o desafio passa por um proxy ou quando o próprio device-code entrega o token ao atacante; e a persistência via fatores rogue faz a simples troca de senha parecer solução quando não é. A defesa combina MFA phishing-resistant, bloqueio de device-code, revogação de sessões e monitoramento da sequência completa — identidade, Graph e armazenamento — em vez de indicadores isolados. A técnica é conhecida e não há, até agora, vítimas confirmadas no Brasil; mas a infraestrutura rotacionada, o pretexto convincente e a coleta silenciosa tornam a campanha um lembrete direto de que MFA phishable não é MFA.

Perguntas frequentes

O que é essa campanha de phishing com isca de passkey?

É uma operação de engenharia social rastreada pela Microsoft desde maio de 2026 em que atacantes se passam por suporte de TI por ligação, SMS ou Teams, usam a configuração de passkey, MFA ou SSO como pretexto e direcionam funcionários para páginas de login falsas. O objetivo não é cadastrar passkey: é roubar a sessão da conta Microsoft 365 via phishing AiTM ou device-code flow.

Por que completar o MFA não impediu o roubo da conta?

O MFA prova que alguém respondeu ao desafio, mas não prova com quem o navegador está conversando. No AiTM, o desafio passa por um proxy que retransmite o login real e copia o token de sessão no caminho. No device-code, a aprovação acontece na página oficial da Microsoft, mas o token é emitido para o aplicativo do atacante. Nos dois casos, o usuário completa o segundo fator e a sessão vai para as mãos erradas.

O que é device-code flow (device code phishing)?

É um fluxo legítimo do OAuth usado para autenticar aplicativos sem navegador — o usuário digita um código em uma página oficial da Microsoft para aprová-los. No abuso, o atacante convence a vítima a aprovar o código de um client controlado por ele; o token gerado pela aprovação é entregue a esse client, que passa a acessar os recursos sem roubar cookie do navegador.

O que é um ataque adversary-in-the-middle (AiTM)?

É uma evolução do man-in-the-middle: o atacante opera um proxy reverso que espelha o site legítimo e retransmite todo o tráfego entre vítima e serviço real. A vítima conversa com a Microsoft de verdade, mas toda a conversa passa pelo atacante, que copia credenciais e tokens de sessão no caminho — a mesma mecânica documentada no caso BigBear 2.0.

Como os atacantes mantêm o acesso depois de roubar a sessão?

Eles registram métodos de autenticação próprios na identidade da vítima — número de telefone, aplicativo autenticador ou token OTP de software. Esses fatores rogue permitem satisfazer desafios futuros de MFA sem o usuário. Uma redefinição de senha pode não expulsá-los se restarem sessões ativas, refresh tokens ou métodos cadastrados por eles.

Como os atacantes coletam dados sem serem notados?

Eles usam o Microsoft Graph para mapear usuários, grupos, sites, arquivos e caixas de correio, e baixam conteúdo de SharePoint, OneDrive e Exchange em ritmo lento — em geral menos de 1.000 arquivos ou mensagens por hora —, sustentado por horas ou dias. A automação (como o user agent python-httpx), a rotatividade de IPs e o acesso via proxy anônimo ajudam a atividade a se misturar ao uso normal.

Como saber se minha organização foi alvo?

Correlacione sinais em vez de olhar um IP isolado: sign-in incomum seguido de cadastro de novo método de MFA, descoberta intensa via Microsoft Graph, acesso via proxy anônimo, downloads automatizados e buscas concentradas em caixas de correio e anexos. Os domínios da tabela acima podem ser bloqueados no DNS e correlacionados no SIEM; a ausência de um indicador não descarta atividade, já que a infraestrutura é rotacionada.

O que fazer em caso de comprometimento confirmado?

Revogue sessões ativas e refresh tokens, redefina credenciais, remova métodos de autenticação não autorizados e regras de caixa de correio criadas pelo atacante, e exija re-registro seguro dos fatores. Trate o caso como incidente de identidade — sessões roubadas podem sobreviver a um password reset — e monitore a conta por atividade anômala nas semanas seguintes.

Fontes e leituras adicionais

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