Phishing por assinatura derruba o MFA de empresas: BigBear 2.0 rouba sessões do Microsoft 365 em 258 organizações

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Phishing por assinatura derruba o MFA de empresas: BigBear 2.0 rouba sessões do Microsoft 365 em 258 organizações

Rodrigo ColissiRodrigo Colissi
08 de setembro de 202615 min de leitura
PhishingCibercrimes

Introdução

A CloudSEK (empresa de inteligência de ameaças) identificou em junho de 2026 a operação BigBear 2.0, uma plataforma de phishing como serviço (PhaaS) baseada no framework de ataque Evilginx2 que conseguiu contornar a autenticação multifator (MFA) de mais de 250 organizações que usam o Microsoft 365 (suíte de produtividade em nuvem da Microsoft). Ao obter acesso administrativo ao painel da operação, os pesquisadores encontraram 5.137 registros de credenciais roubadas ligados a 461 organizações e 3.331 endereços IP de vítimas em mais de 40 países — incluindo 474 sessões autenticadas completas, 1.032 senhas em texto puro e 4.148 cookies de sessão.

O diferencial da campanha não é quebrar o segundo fator: é roubar a prova de que o usuário passou por ele. O BigBear 2.0 se posiciona entre a vítima e o login legítimo, deixa a Microsoft validar a senha e o desafio de MFA normalmente e, no instante em que o servidor emite o cookie de sessão autenticada, copia esse cookie antes de devolvê-lo ao navegador. Com ele, o atacante entra na conta sem tocar no código de um só fator — uma técnica conhecida como adversary-in-the-middle (AiTM) (intermediário no meio do caminho, que espelha o tráfego entre vítima e serviço legítimo).

Contexto: por que o MFA deixou de ser a linha de defesa

A campanha derruba a premissa de que "ter MFA ativado é estar protegido". Códigos por SMS, aplicativos autenticadores (TOTP) e notificações push confirmam o usuário durante a sessão viva — exatamente o que o proxy captura. A mecânica representa uma evolução em relação ao roubo clássico de credenciais, o mesmo alvo de trojans como o OtterCookie, mas atacado em tempo real, durante o login, com a sessão já autenticada.

O modelo de negócio também chama a atenção: operações como o BigBear 2.0 transformam o roubo de contas em serviço de assinatura, com painel multi-usuário, afiliados e exfiltração automática via bots de Telegram. Para empresas brasileiras — em especial provedores de serviços gerenciados (MSPs), escritórios de contabilidade e fornecedores de TI, que concentram acesso privilegiado a clientes —, a mesma mecânica já é usada contra bancos e organizações locais. Se um único fornecedor cai, a porta se abre para dezenas de clientes.

BigBear 2.0: o PhaaS que transforma MFA em mercadoria

O BigBear 2.0 é a versão rebatizada do Evilginx2, framework open source de phishing que atua como proxy reverso entre a vítima e o serviço alvo. A operação é administrada por um operador identificado pelo alias "General Boss" e roda sobre uma rede de 42 servidores virtuais privados (VPS) (máquinas virtuais alugadas usadas como servidores dedicados), hospedados majoritariamente na nuvem da Vultr. O phishlet padrão — a configuração que ensina o framework a imitar um site — é batizado de "offy" e mira exclusivamente o fluxo de autenticação do Microsoft 365 (protocolo OAuth 2.0 do Azure AD/Entra ID), o que o torna eficaz contra qualquer organização que use essa identidade corporativa.

O painel que a CloudSEK acessou revela uma operação industrial, com pipeline automatizado de processamento de credenciais: a captura dispara uma notificação via bot de Telegram, anexa um arquivo cookie.js e alimenta um motor de replay de cookies via API — tudo em tempo quase real. Ao menos cinco afiliados alugavam acesso à plataforma, cada um recebendo as credenciais roubadas em seu próprio chat de Telegram. Os números do painel:

MétricaValor
Registros de credenciais roubadas5.137
Sessões completas com MFA burlado474 (9,2%)
Senhas capturadas em texto puro1.032
Cookies de sessão roubados4.148
Organizações afetadas461
IPs de vítimas (países: 40+)3.331
Nós VPS gerenciados42

A monetização provável, segundo os pesquisadores, é a revenda de acesso inicial (initial access brokerage): cookies de sessão viram porta de entrada para ransomware, extorsão de dados ou fraudes de business email compromise (BEC) (comprometimento de e-mail corporativo para fraudar pagamentos e pedidos). A operação ainda estava ativa quando o relatório foi escrito — desde o fim de julho de 2026, o operador apagou 26 dos 42 VPS do painel, um movimento típico de contramedida forense após a detecção.

A cadeia AiTM: o proxy entre a vítima e o login real

O ataque segue um fluxo em cinco etapas, começando pelo e-mail de phishing e terminando com o acesso à conta já autenticada em outro navegador. Abaixo apresentamos o diagrama da cadeia e detalhamos cada etapa em seguida.

Cadeia AiTM do BigBear 2.0

E-mail de phishinglink para página falsaProxy Evilginx2entre vítima elogin realCaptura da sessãosenha + código MFA +cookie de sessãoReplay do cookieoutro navegador,via APIAcesso à contae-mail · Teams ·SharePoint · OneDrive

A página falsa que entrega um cadeado verdadeiro

Cada nó VPS roda uma instância do Evilginx2 com certificados TLS provisionados automaticamente via Let's Encrypt para cada subdomínio de phishing — no padrão login.<domínio-falso>, com DNS curinga apontando para o IP do servidor. O resultado: a vítima vê um cadeado HTTPS válido e uma página visualmente idêntica à da Microsoft. A terminação TLS acontece no próprio proxy, que abre uma segunda conexão criptografada com o servidor real da Microsoft — a inspeção SSL do firewall corporativo não enxerga esse tráfego, e a Microsoft vê o IP do VPS, não o IP da vítima.

Quando a vítima digita o e-mail e a senha, o proxy encaminha tudo ao login legítimo (login.microsoftonline.com) e copia as credenciais no caminho. O passo seguinte é o coração do ataque: a vítima completa o segundo fator — TOTP, push ou SMS — na página real espelhada, a Microsoft valida o código e responde com o cookie de sessão no cabeçalho Set-Cookie. Como todo o tráfego passa pelo proxy, o servidor entrega esse cookie ao atacante antes de chegar ao navegador da vítima. O atacante nunca precisa ver o código: ele espera o usuário validá-lo e rouba o resultado. O painel confirma a eficiência: 80% das entradas de senha resultaram em captura do cookie de sessão.

O replay: a sessão roubada em outro navegador

O cookie capturado (no caso do Azure AD, o ESTSAUTH) é importado no navegador do atacante, que herda a sessão completa — sem novo desafio de MFA. A operação automatiza isso com um endpoint de API REST (/api/jobs) que reproduz os cookies em massa contra o serviço alvo, e mantém o acesso vivo por um mecanismo de keepalive que reutiliza o refresh token (token que renova a sessão sem novo login), normalmente válido por até 90 dias. Um script injetado marca automaticamente a opção "Manter conectado" (KMSI) para maximizar a vida útil do cookie. De posse da sessão, o atacante acessa e-mail, Teams, SharePoint, OneDrive e todos os aplicativos de SSO conectados — e pode até navegar pelo portal do Entra ID em busca de permissões delegadas (grants OAuth) para pivotar para outros serviços na nuvem.

FIDO2 na mira: como a operação desarma a chave de segurança

O BigBear 2.0 não se limita a capturar o que passa pelo proxy: ele ativamente empurra a vítima para longe da única autenticação que resiste ao AiTM. A análise da página de phishing ao vivo revelou três injeções de JavaScript proprietárias, ausentes no Evilginx2 padrão. A primeira redefine window.PublicKeyCredential como indefinido e intercepta navigator.credentials, quebrando na prática o FIDO2 (padrão de autenticação sem senha com chaves de segurança) e o WebAuthn (padrão web de autenticação por chaves criptográficas) — o usuário com chave de segurança cai para um segundo fator "phishable", como SMS ou código. A segunda bloqueia a telemetria anti-phishing da Microsoft (requisições a canarytokens, events.data.microsoft.com e OneCollector), dificultando a detecção. A terceira marca o "Manter conectado" automaticamente.

A infraestrutura completa a evasão com um pool de 69 proxies residenciais por país, com correspondência automática de geolocalização: uma vítima na Índia vê o tráfego sair de um IP residencial indiano. Isso derruba os alertas de "login de localização incomum", satisfaz políticas de Conditional Access baseadas em local e ainda bloqueia pesquisadores — o painel consulta o serviço ipapi.is e recusa visitantes vindos de VPNs, datacenters e proxies, como aconteceu durante a própria investigação.

Foco em MSPs: um fornecedor comprometido, muitos clientes

O setor mais atingido foi o de serviços de TI e provedores de serviços gerenciados (MSPs) (empresas que administram a TI de terceiros por assinatura), com 151 organizações — seguido por SaaS/tecnologia (38), óleo e gás (22), farmacêutico (20) e consultoria (16). A escolha é estratégica: um MSP comprometido é uma rota para dezenas de clientes downstream, e seus técnicos costumam ter acesso privilegiado a Azure AD, Active Directory local, ferramentas de gerenciamento remoto (RMM) e gerenciadores de senhas. A distribuição setorial ampla — 438 domínios únicos em mais de 40 países — sugere uma mistura de disparo em massa de listas de e-mail com listas setoriais compradas.

Indicadores de comprometimento (IoCs)

Os indicadores abaixo foram publicados pela CloudSEK e pelo Cyber Security News. Os IPs e domínios estão defangados, com a entidade . no lugar dos pontos, para evitar resolução acidental; reative-os apenas em plataformas controladas de inteligência de ameaças, como MISP, VirusTotal ou seu SIEM. Como a infraestrutura pode ser reatribuída, a ausência de um indicador não descarta atividade.

IP do VPS (defangado)Tipo
38.60.250.157Nó VPS
95.179.233.79Nó VPS
80.240.27.55Nó VPS
65.20.103.58Nó VPS
208.85.20.79Nó VPS
130.94.82.180Nó VPS
38.54.124.58Nó VPS
208.85.18.18Nó VPS
45.32.147.239Nó VPS
70.34.208.46Nó VPS histórico
130.94.113.184Nó VPS histórico
78.141.193.59Nó VPS histórico

Domínios de phishing (defangados): konceptenterprises.com, dnsforward.com, dataclust.com, offtic.com, annastudios-paros.com, cifutura.com, hoaivt.com, dronalms.com, kgsscans.com, soil-management.com e management.daengrentacar.com (página viva observada em /meetings).

Indicadores de aplicação: cabeçalhos HTTP x-evg-token, x-evg-server e x-evg-session; cookies evginx_session, evginx_token, evginx_admin, bigbear_session e bigbear_token. Bots de Telegram associados: @comeandget_bot (administrador, revogado) e os bots de afiliados @botterxyz_bot, @PackingitonG_bot, @donplayer_bot, @bolywan_bot e @rdsxtdytguyg75d_bot.

Como se proteger

Autenticação phishing-resistant. A única forma de MFA que neutraliza estruturalmente o AiTM é a baseada em FIDO2/WebAuthn — chaves de segurança físicas, passkeys ou autenticadores de plataforma como Windows Hello e Face ID. A asserção criptográfica é vinculada ao domínio de origem: no proxy, o navegador vê o domínio falso e a chave se recusa a assinar, porque o origin não corresponde ao registrado. Priorize a implantação para administradores e usuários sensíveis, e trate qualquer tentativa de "rebaixar" para SMS/código como sinal de ataque.

Trate o cookie roubado como incidente de identidade, não como senha vazada. Diante de suspeita, redefina a senha, revogue as sessões ativas e os refresh tokens e force nova autenticação das contas afetadas — no Azure AD, a revogação de tokens invalida o cookie capturado.

Monitore o que acontece depois do login. Regras de encaminhamento de caixa postal criadas do nada, grants de consentimento OAuth para aplicativos desconhecidos, apps com acesso inesperado e atividades de sign-in de IPs residenciais incomuns ou navegadores novos são os rastros típicos de uma sessão sequestrada. Centralizar esses logs em um SIEM, como o Wazuh, e regras de detecção como as SIGMA publicadas pela CloudSEK ajuda a flagrar o replay antes que vire dano.

Encurte a vida das sessões e use Conditional Access. Políticas que exigem dispositivos conformes, sessões com duração curta e alertas para novos navegadores reduzem a janela de uso do cookie roubado. Filtros de e-mail devem inspecionar links que imitam páginas de login mesmo com certificados válidos — o cadeado não é prova de legitimidade.

Para o usuário final. Uma página familiar da Microsoft e um desafio de MFA que funciona não provam que o navegador está conectado diretamente à Microsoft. Confirme solicitações inesperadas de login acessando o serviço por um bookmark confiável ou aplicativo conhecido — nunca pelo link do e-mail.

Conclusão

O BigBear 2.0 demonstra que o MFA tradicional deixou de ser suficiente diante de operações profissionais de phishing por assinatura: não é o código que é quebrado, é a sessão que é roubada — e a infraestrutura de vítimas se espalha por mais de 40 países, com concentração deliberada em fornecedores de TI cujo comprometimento abre caminho para cadeias inteiras de clientes. A defesa eficaz combina autenticação phishing-resistant (FIDO2/WebAuthn), controles de sessão, monitoramento ativo de pós-login e a consciência de que roubo de cookie é incidente de identidade — não problema de senha. Enquanto houver MFA phishable e usuários clicando em links de e-mail, haverá proxies esperando do outro lado.

Perguntas frequentes

O que é o BigBear 2.0?

É uma operação de phishing como serviço (PhaaS) baseada no framework Evilginx2, identificada pela CloudSEK em junho de 2026. Ela usa proxies adversary-in-the-middle para capturar senha, código MFA e cookie de sessão de contas Microsoft 365. O painel da operação continha 5.137 registros de credenciais roubadas de 461 organizações em mais de 40 países.

O que significa PhaaS?

Phishing as a Service, ou phishing como serviço: o operador desenvolve e mantém a infraestrutura de ataque (painel, servidores, phishlets) e a aluga para afiliados, que recebem as credenciais roubadas em tempo real — no caso do BigBear 2.0, via bots de Telegram. É o mesmo modelo de negócio dos ransomware-as-a-service, aplicado ao roubo de contas.

Como o ataque burla o MFA se o código é validado pela Microsoft?

O atacante não quebra nem intercepta o código. O proxy deixa a vítima digitar o código na página legítima da Microsoft (espelhada), a Microsoft valida normalmente e emite o cookie de sessão autenticada — mas o cookie passa pelo proxy antes de chegar ao navegador da vítima, e o atacante o copia. A partir daí, ele importa o cookie no próprio navegador e herda a sessão completa, sem novo desafio de MFA.

O que é um ataque adversary-in-the-middle (AiTM)?

É uma evolução do man-in-the-middle: em vez de interceptar passivamente, o atacante opera um proxy reverso que espelha o site legítimo e retransmite todo o tráfego entre vítima e serviço real em tempo real. No caso do BigBear 2.0, a vítima conversa com a Microsoft de verdade — só que toda a conversa passa pelo atacante, que copia senhas e cookies no caminho.

Por que FIDO2 e WebAuthn resistem ao BigBear 2.0?

Porque a asserção criptográfica é vinculada ao domínio de origem: a chave de segurança só assina para o origin registrado (por exemplo, login.microsoftonline.com). No proxy, o navegador vê o domínio falso, o origin não confere e a autenticação falha. Por isso a operação injeta JavaScript que desativa o suporte a chaves no navegador da vítima, forçando a queda para SMS ou código — métodos phishable.

Como saber se minha organização foi alvo?

Verifique nos logs do Entra ID/Azure AD a atividade de sign-in por IPs residenciais incomuns ou navegadores novos, procure regras de encaminhamento de caixa postal criadas recentemente, grants OAuth para aplicativos desconhecidos e sessões ativas em locais inesperados. Os indicadores publicados (IPs de VPS, domínios, cabeçalhos x-evg- e cookies evginx/bigbear) podem ser correlacionados no SIEM, inclusive com as regras SIGMA da CloudSEK.

O que fazer se um cookie de sessão foi roubado?

Trate como incidente de identidade: redefina a senha da conta afetada, revogue sessões ativas e refresh tokens (a revogação no Azure AD invalida o cookie capturado) e force nova autenticação. Depois, revise regras de encaminhamento, grants OAuth e acessos de aplicativos, e monitore a conta por atividade anômala nas semanas seguintes.

A operação já foi desmantelada?

Não — segundo o relatório, ela ainda estava ativa quando foi publicado. O operador apagou 26 dos 42 VPS do painel desde o fim de julho de 2026, movimento de contramedida forense após a detecção, e a infraestrutura pode ser reatribuída. Por isso os indicadores devem ser monitorados continuamente e a ausência de um IoC não significa ausência de atividade.

Fontes e leituras adicionais

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