TVs LG "desligadas" varrem sua rede e gravam o que você fala — dados vão para a rede de anúncios

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TVs LG "desligadas" varrem sua rede e gravam o que você fala — dados vão para a rede de anúncios

Rodrigo ColissiRodrigo Colissi
08 de setembro de 202611 min de leitura
PrivacidadeIoT

Resumo: uma investigação independente aponta que TVs LG OLED em modo standby varrem a rede doméstica e capturam áudio do microfone, armazenando tudo localmente e enviando para a infraestrutura de anúncios da LG Ad Solutions quando a conexão é restabelecida. Veja a cadeia de coleta e como se proteger.

Introdução

Uma investigação conduzida pelo Gamers Nexus (canal de análise técnica de hardware) em parceria com o Level1Techs e pesquisadores de segurança independentes aponta que televisores LG (fabricante de eletrônicos, incluindo smart TVs) OLED — entre eles o modelo topo de linha G5 — continuam varrendo a rede doméstica e capturando áudio do microfone mesmo com a tela aparentemente "desligada". Os dados seguem para a infraestrutura de publicidade da LG Ad Solutions (divisão de publicidade e medição de audiência da LG).

Divulgadas em 07/09/2026 em um vídeo de 135 minutos, as conclusões se apoiam em capturas de pacotes feitas com o Wireshark (ferramenta de análise de tráfego de rede, amplamente usada em testes de segurança). Durante os testes, as TVs escanearam ativamente a rede local em busca de celulares e smartwatches de funcionários que nem participavam do experimento, além de catalogar redes Wi-Fi vizinhas com força de sinal — comportamento que a fabricante nega em suas comunicações públicas.

O que está em jogo: a TV como sensor permanente

O problema não se limita à sala de estar. O reconhecimento automático de conteúdo, o ACR (tecnologia que identifica o que está sendo exibido na tela para medir audiência), segue operando em todas as entradas de vídeo, inclusive HDMI. Isso significa que um painel LG usado apenas como monitor passivo — em hospitais, hotéis e salas de reunião corporativas — pode ser arrastado para o mesmo fluxo de dados. Um médico que revisou os achados manifestou preocupação com a confidencialidade de pacientes em ambientes onde conversas sensíveis acontecem perto do aparelho.

A escala é expressiva: a LG Ad Solutions expandiu o programa para cerca de 33 milhões de telas opt-in apenas nos Estados Unidos, com parceria com a Nielsen (empresa de medição de audiência) para mensuração nacional. No Brasil, o caso acende um alerta específico de conformidade: qualquer tratamento de dados pessoais, incluindo voz e hábitos de consumo, exige base legal, transparência e consentimento nos termos da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, a legislação brasileira de privacidade).

Como a TV coleta os dados mesmo "desligada"

A coleta segue uma cadeia de cinco estágios, começando pela varredura silenciosa da rede em standby e terminando na construção de um perfil publicitário a partir de dados de áudio e audiência. Abaixo, apresentamos o fluxo da telemetria e detalhamos cada etapa em seguida.

Cadeia de coleta de dados da TV LG

Standbytela "desligada"Varredura + áudioscan da LAN · microfonegravação localStore-and-forwardgrava offlineenvia ao reconectarLG Ad Solutionsinfra de anúnciosPerfil de publicidadeACR + transcrições

Os estágios da coleta

O primeiro estágio acontece em standby, sem que o usuário interaja com o aparelho: a TV varre ativamente a rede local em busca de dispositivos não vinculados — celulares, smartwatches e outros equipamentos — e registra os SSIDs (nomes das redes Wi-Fi) vizinhos com as respectivas forças de sinal e canais. Na prática, a TV mapeia a topologia da casa e produz dados que permitem estimar a localização física da residência, algo que a LG nunca comunicou como finalidade aos usuários.

Em seguida, o microfone entra em cena. Segundo a investigação, os aparelhos capturam áudio com clareza mesmo com a tela aparentemente desligada, e a transcrição dos comandos falados é feita localmente no aparelho, gravada em logs de texto puro — não apenas amostras brutas de áudio ambiente. A distinção é relevante: mesmo que a afirmação pública da LG de que não coleta "conversas ambientes" seja tecnicamente defensável, o pipeline do assistente de voz ainda captura, processa e retém a fala no dispositivo antes de qualquer envio.

Por fim, entra em ação o mecanismo de store-and-forward (estratégia de armazenar dados localmente e enviá-los quando houver conexão): a gravação persiste mesmo com o cabo de rede fisicamente desconectado e é enviada automaticamente assim que a conectividade é restabelecida, alimentando a infraestrutura da LG Ad Solutions. É esse comportamento que converte a TV em um sensor persistente: desligar a tela — ou até tirar o cabo — não interrompe a coleta, apenas adia o upload.

O que a investigação observou

Os pesquisadores consolidaram as observações técnicas e seus impactos na tabela abaixo, reproduzida e traduzida do relatório original:

ParâmetroObservação técnicaImpacto
Descoberta de rede localVarre ativamente a LAN em busca de celulares e smartwatches não vinculadosMapeia a topologia da rede doméstica sem ação ou pareamento do usuário
Reconhecimento do ambiente Wi-FiCataloga SSIDs vizinhos, forças de sinal e canaisPermite triangulação da localização da casa e arredores
Gravação de áudio em standbyTranscreve o áudio do microfone localmente com a tela desligadaOpera offline e envia os logs acumulados quando a rede é restabelecida
Reconhecimento de conteúdo (ACR)Opera continuamente em todas as entradas, inclusive HDMIRastreia hábitos de consumo em residências, salas de reunião e clínicas
Motor de monetização de dadosTransmite os dados coletados para a infraestrutura da LG Ad SolutionsAmplia o perfilamento em cerca de 33 milhões de telas opt-in

Como se proteger

Tire a TV da rede. A medida mais eficaz é desconectar a smart TV da internet — tanto o cabo de rede quanto o Wi-Fi — e usá-la apenas como monitor. Sem conectividade, o aparelho perde a capacidade de enviar a telemetria acumulada, e o store-and-forward deixa de ter para onde escoar os dados.

Use um player externo. Para quem não abre mão dos streamings, a recomendação dos pesquisadores é rotear o conteúdo por dispositivos externos como Roku (plataforma de streaming em hardware dedicado), Apple TV ou Fire Stick, conectados diretamente à TV pela entrada HDMI. Assim, o software da própria TV fica isolado da rede e o painel volta a ser um monitor passivo.

Desative o microfone nas configurações. Onde a opção existir, desligar o microfone embutido reduz a superfície de captura de áudio. Vale conferir também as configurações do assistente de voz, que costumam habilitar a escuta contínua por padrão.

Revise os painéis de privacidade e opt-out. As TVs LG expõem dashboards de privacidade onde é possível desativar a coleta de dados de audiência e o reconhecimento de conteúdo. Revisar periodicamente esses painéis — e refazer o opt-out após atualizações de firmware, que podem reativar opções — é uma rotina recomendada para qualquer smart TV.

Segmente a rede IoT. Em vez de deixar a TV na mesma rede dos computadores e celulares, isole os dispositivos inteligentes em uma VLAN (rede virtual que separa logicamente segmentos de uma mesma infraestrutura física) dedicada. Na prática, a TV continua funcionando, mas perde visibilidade sobre o resto da casa — e o mapeamento observado na investigação deixa de enxergar seus equipamentos.

Monitore o que sua rede fala. Ferramentas de inventário e observabilidade ajudam a enxergar o que a TV descobre e para onde envia dados: o nmap permite reproduzir a varredura e saber exatamente o que um dispositivo conectado consegue enxergar na LAN, enquanto o Wazuh (plataforma de segurança open source para monitoramento e detecção de ameaças) pode sinalizar comunicações inesperadas de dispositivos IoT. Para exposição externa, buscas no Shodan revelam se equipamentos da sua rede aparecem publicamente.

Exija transparência — e LGPD vale aqui. No Brasil, a coleta de voz e hábitos de consumo depende de base legal e informação clara ao titular. Se a sua TV enviar dados sem consentimento válido, há fundamento para reclamação à ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados, órgão regulador da LGPD no Brasil) e pedido de explicação à fabricante — a lei dá ao titular o direito de saber o que é coletado, por quem e para quê.

Conclusão

A investigação do Gamers Nexus coloca em evidência um fato incômodo sobre o modelo de negócio das smart TVs: o hardware na sala de estar pode operar como um sensor de vigilância permanente, varrendo a rede, escutando o ambiente e monetizando tudo isso via LG Ad Solutions — com a LG negando publicamente a coleta de conversas ambientes. Independentemente da disputa sobre o significado exato de "conversas ambientes", o pipeline de voz captura, processa e retém fala no dispositivo antes de qualquer envio, e o store-and-forward garante que os dados cheguem ao destino mesmo após a desconexão física.

Para o consumidor, a defesa é prática e imediata: tirar a TV da rede, usar um player externo, desativar o microfone e segmentar a rede IoT. Para o mercado brasileiro, o caso reforça a importância da LGPD como ferramenta de controle sobre dispositivos que coletam dados silenciosamente — e a necessidade de tratar qualquer "smart" como um dispositivo de rede que precisa ser monitorado, isolado e auditado como qualquer outro.

Perguntas frequentes

Minha TV LG grava o que eu falo?

Segundo a investigação, TVs LG OLED capturam áudio do microfone mesmo em standby e fazem a transcrição localmente, em logs de texto puro. A LG nega coletar "conversas ambientes", mas os pesquisadores mostram que o pipeline do assistente de voz captura, processa e retém a fala no dispositivo antes de qualquer envio.

A TV coleta dados mesmo desligada?

Sim. Os testes mostram que a varredura da rede e a captura de áudio continuam com a tela aparentemente desligada, em modo standby. O comportamento persiste inclusive com o cabo de rede desconectado: os dados ficam armazenados localmente e são enviados quando a conexão é restabelecida — o mecanismo de store-and-forward.

O que é ACR e por que ele importa?

ACR é o reconhecimento automático de conteúdo: a TV identifica o que está sendo exibido na tela para medir audiência e alimentar publicidade. A investigação aponta que o ACR opera em todas as entradas, inclusive HDMI, o que significa que o rastreamento vale também quando a TV é usada apenas como monitor.

Desligar o Wi-Fi ou tirar o cabo de rede resolve?

Não por completo. Sem conexão, a TV deixa de enviar os dados, mas a coleta local continua: o aparelho grava e armazena localmente, enviando tudo quando a rede volta. A medida eficaz é manter a TV permanentemente fora da rede e usar um player externo para os streamings.

Como saber se minha TV faz isso?

A investigação usou capturas de pacotes com o Wireshark para observar o tráfego. Em casa, é possível analisar o tráfego da rede com ferramentas como Wireshark ou nmap e observar comunicações suspeitas saindo do endereço da TV. Vale também revisar os dashboards de privacidade do aparelho, que listam as opções de coleta e opt-out.

A LG confirmou a coleta de áudio?

Não. A LG afirma publicamente que suas TVs não coletam, gravam ou armazenam conversas ambientes. O Gamers Nexus diz que os testes contradizem essa afirmação, mostrando transcrição local de prompts falados em logs. A fabricante ainda não comentou oficialmente os achados da investigação.

Quantas TVs estão envolvidas?

A LG Ad Solutions afirma ter cerca de 33 milhões de telas opt-in apenas nos Estados Unidos, com parceria com a Nielsen para medição nacional de audiência. O número global, incluindo aparelhos fora do programa opt-in, não foi divulgado.

Isso é permitido no Brasil?

Depende da base legal. A LGPD exige finalidade específica, transparência e consentimento válido para o tratamento de dados pessoais — e voz e hábitos de consumo são dados pessoais. Coleta silenciosa, sem informação clara ao titular, contraria a lei e pode fundamentar reclamação à ANPD.

Fontes e leituras adicionais

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