
Artigo
XWorm: a anatomia do RAT modular que o grupo BREEZE COMET usa contra bancos brasileiros
O que você vai aprender neste artigo: o que é o XWorm, um remote access trojan (RAT) — programa malicioso que dá acesso remoto total à máquina infectada — que virou commodity no cibercrime; como ele se comunica com o servidor de comando e controle (C2), quais plugins carrega em memória e por que ele aparece como backdoor nas campanhas do grupo BREEZE COMET contra instituições financeiras brasileiras. Você também vai ver um passo a passo de análise do malware — do ambiente isolado à extração de configuração — e as defesas práticas para detectar e conter uma infecção.
Pré-requisitos
Para acompanhar a análise, você vai precisar de:
- Conhecimento básico de análise de malware e do ecossistema Windows: registro, processos, binários .NET e a suíte Sysinternals.
- Wazuh, o SIEM open source que vamos usar para transformar a análise em regras de detecção e correlação.
- pestudio, ferramenta de análise estática de binários Windows que revela seções, imports e entropia sem executar o arquivo.
- Um ambiente isolado: máquina virtual com snapshots, rede simulada e captura de tráfego com Wireshark ou tcpdump.
- Opcional: uma sandbox pública como ANY.RUN (serviço de análise automatizada de malware em nuvem) e o motor de regras YARA.
Passo a passo: analisando um espécime do XWorm
O primeiro passo é preparar o ambiente de análise. Use uma VM Windows sem dados sensíveis, tire um snapshot limpo e configure a captura de tráfego na interface de rede antes de executar qualquer coisa. O objetivo é responder a três perguntas: o que o binário faz, com quem ele fala e como ele se mantém na máquina. Sem um ponto de restauração e sem o registro de rede, você perde a maior parte da evidência.
Em seguida, partimos para a análise estática com o pestudio. Abra o binário e examine o cabeçalho do PE (Portable Executable, o formato executável do Windows): verifique a compilação, as seções e os imports. O XWorm é escrito em .NET, então espere imports de mscorlib e um manifesto que denuncie o runtime. Preste atenção à entropia das seções — valores acima de 7,0 indicam conteúdo cifrado ou comprimido, típico de payload empacotado — e rode a extração de strings. Em amostras reais, é comum encontrar ali os nomes dos comandos de plugin, como sendplugin e RemovePlugins, além de URLs e portas em texto claro:
# Extrai strings em UTF-16 (padrão do .NET) e filtra indícios de configuração
strings -el sample_xworm.exe | grep -iE "plugin|http|port|key|666666"
# Inspeciona o cabeçalho e as seções do PE
objdump -p sample_xworm.exe | head -60Depois, a análise dinâmica. Execute a amostra na VM e observe com o Process Monitor e o Process Explorer o que ela cria: arquivos em %APPDATA% e %TEMP%, chaves de registro de persistência em Run e RunOnce, tarefas agendadas e atalhos em pastas de inicialização. O XWorm costuma se copiar para um local persistente disfarçado de arquivo de sistema e registrar um identificador de cliente no registro, em HKCU\SOFTWARE<Client ID>. Repare também se o malware desativa o AMSI (Antimalware Scan Interface, a API que expõe conteúdo malicioso às defesas do Windows) e se injeta código em processos legítimos — o process hollowing, que substitui a imagem de um processo válido pela do malware, é uma assinatura clássica desta família.
Na sequência, analise o tráfego de rede capturado. O XWorm abre uma conexão TCP direta com o C2, quase sempre em porta não padrão, e envia um pacote de registro cifrado — a análise do FortiGuard Labs documenta esse handshake e a troca de comandos. Se a amostra vier desempacotada e você tiver a chave de cifra (as versões v5.6 e v6 usavam chaves padrão conhecidas, <123456789> e <666666> respectivamente), é possível decodificar o tráfego com o Wireshark e observar os comandos trafegando:
# Captura o tráfego da VM isolada para análise posterior
sudo tcpdump -i eth0 -n host 192.0.2.10 -w xworm.pcapPor fim, consolide a análise escrevendo regras de detecção. Com o YARA, você cria uma assinatura baseada nas strings e no formato do arquivo; com o Wazuh, converte os comportamentos observados — criação de tarefa agendada, escrita em chave Run, spawn de processos inesperados — em regras de correlação que alertam a equipe em produção. Um exemplo didático de regra YARA:
rule M_Backdoor_XWorm_Generic {
meta:
author = "Zero Day Security"
description = "Regra genérica educacional para binários associados ao XWorm"
strings:
$s1 = "sendplugin" ascii wide
$s2 = "RemovePlugins" ascii wide
$s3 = "savePlugin" ascii wide
$s4 = "XWorm" ascii wide
$s5 = "Lime" ascii wide
condition:
uint16(0) == 0x5A4D and filesize < 10MB and 3 of them
}Explicação técnica: protocolo, comunicação e módulos
Para entender por que o XWorm se tornou o RAT mais popular do submundo, é preciso olhar para a arquitetura dele: um cliente leve escrito em .NET, um servidor C2 que orquestra milhares de máquinas e um sistema de plugins carregados sob demanda. Abaixo apresentamos o fluxo de uma infecção típica e, em seguida, detalhamos cada componente.
Cadeia de infecção típica
Arquitetura modular
O núcleo do XWorm é um cliente que faz três coisas: mantém a persistência, estabelece a comunicação com o C2 e executa comandos. Tudo o que é funcionalidade extra vem em plugins — bibliotecas DLL carregadas e executadas inteiramente em memória, sem tocar o disco. O operador dispara o comando plugin pelo painel; o cliente verifica se já tem a DLL registrada em HKCU\SOFTWARE<Client ID> e, se não tiver, pede ao C2 com o comando sendplugin. O servidor responde com savePlugin, enviando a DLL em Base64, e o cliente a executa invocando métodos pré-definidos — Run, RunRecovery, RunOptions, injRun, UACFunc, ENC e DEC. Essa arquitetura permite ao atacante adicionar capacidades sem recompilar o cliente: o mesmo binário vira keylogger, ladrão de senhas ou ransomware conforme o plugin carregado.
Comunicação com o C2
A comunicação é TCP direto, sem HTTP: o cliente conecta ao servidor — tipicamente um domínio de DNS dinâmico, às vezes um IP fixo — em portas não padrão, e o tráfego é cifrado com uma chave simétrica embutida na configuração. O FortiGuard Labs descreve o fluxo: ao conectar, o cliente envia um pacote de registro com informações da máquina — privilégios administrativos, versão do sistema, versão do XWorm — e passa a receber comandos. Diferente de outros RATs que carregam strings identificáveis no handshake, o XWorm varia o tráfego, o que dificulta a detecção por assinatura de rede pura. Algumas variantes usam canais alternativos: o C2 via Telegram (aplicativo de mensagens usado tanto para vender o malware quanto, em algumas versões, para receber comandos) e túneis sobre protocolos comuns para atravessar firewalls.
Geração do identificador do cliente
Cada máquina infectada ganha um identificador único calculado a partir de dados do hardware e do usuário: quantidade de processadores, nome de usuário, nome da máquina, versão do sistema operacional e tamanho do diretório do sistema, combinados em um hash MD5. Esse identificador é usado pelo servidor para organizar os bots, armazenar os plugins no registro e cifrar arquivos — o que significa que o mesmo hash aparece nas chaves de registro criadas na vítima, um bom ponto de partida para a caça em ambiente corporativo.
Plugins observados em campanhas
O relatório do Trellix sobre a versão v6 cataloga os plugins vistos em operações reais: RemoteDesktop.dll cria uma sessão de controle remoto; FileManager.dll dá acesso ao sistema de arquivos; Shell.dll executa comandos em um cmd.exe oculto; Webcam.dll grava a vítima — usada também para confirmar que a máquina é real e não uma sandbox; e a família de stealer — Stealer.dll, Chromium.dll e similares — rouba senhas de navegadores e dados de sessão. Além disso, os operadores costumam executar outros malwares sobre o XWorm: Remcos RAT, Phemedrone Stealer, keyloggers e mineradores de criptomoeda. O Cofense observou que o XWorm é entregue junto com outras famílias em 78% das campanhas — um indicativo de que ele é o elo de acesso de uma cadeia maior, e não o objetivo final.
Cadeias de infecção observadas
A primeira observação do XWorm é de 2022, vendido como serviço em fóruns do submundo e no Telegram, com assinaturas por níveis — versões "quebradas" (cracked) circulam abertamente desde então. O FortiGuard Labs documentou, em fevereiro de 2026, uma campanha com e-mails de múltiplos idiomas e anexos .XLAM explorando o CVE-2018-0802, uma vulnerabilidade de execução remota de código no Equation Editor do Microsoft Office: o Excel dispara um arquivo HTA, que chama o PowerShell, que baixa um módulo .NET embutido em uma imagem JPEG e o injeta via process hollowing em um processo Msbuild.exe legítimo. O Trellix, por sua vez, descreveu a cadeia da versão v7.1 usando JavaScript para baixar o payload e explorando o CVE-2025-8088 em entregas via WinRAR e Discord (plataforma de chat usada como vetor de distribuição). A versão v6.0 ressurgiu em junho de 2025 no hackforums, anunciada pelo suposto sucessor do criador original — que havia sumido após a v5.6 em 2024 — e as versões v7.x continuam ativas em canais do Telegram.
O uso pelo BREEZE COMET
O relatório conjunto do Google Threat Intelligence Group e da Mandiant, publicado em 1º de setembro de 2026, colocou o XWorm no centro da operação do BREEZE COMET (antigo UNC5669), grupo financeiramente motivado que mira sistemas de pagamento brasileiros — Pix, STR e Boleto. Desde meados de 2025, o grupo passou a comprometer sites de prefeituras brasileiras para hospedar ferramentas de acesso remoto, infostealers disfarçados de documentos fiscais — como ComprovantePDF.exe — e backdoors XWorm configurados para persistir via modificação de atalhos de inicialização. Os domínios governamentais comprometidos serviam tanto para a engenharia social de acesso inicial quanto como endpoints de C2, aproveitando a reputação confiável dos domínios .gov.br para passar pelos filtros de reputação de rede. A Mandiant observou a mesma infraestrutura reaproveitada para entregar payloads XWorm contra múltiplas organizações, e o padrão se repetindo em domínios municipais da Nigéria, do Paraguai, de Gana e da Venezuela. Para a fraude em si, o grupo combina o acesso inicial com utilitários e backdoors próprios — como o COBALTSPIN, um túnel reverso SOCKS5 em Rust — e scripts de reconhecimento gerados com apoio de modelos de linguagem, fechando centenas de transferências fraudulentas em 24 a 48 horas e apagando os logs em seguida.
Como se proteger
Controle de aplicação e execução. Bloqueie a execução a partir de diretórios graváveis pelo usuário, como %TEMP% e %APPDATA%, e adote allowlist de aplicações nos endpoints. O XWorm depende de carregar código em memória a partir de arquivos de script e DLLs; sem permissão para executar nesses locais, boa parte das cadeias de infecção simplesmente morre.
Detecção em endpoint. Implante EDR e mantenha o AMSI habilitado — uma das primeiras ações do malware é desativá-lo. Use regras YARA como a do passo a passo no Wazuh e monitore os comportamentos clássicos: criação de tarefas agendadas, escrita em chaves Run e RunOnce, modificação de atalhos .lnk na pasta de inicialização e surgimento de processos como Msbuild.exe ou RegSvcs.exe com parentesco suspeito.
Monitoramento de rede. Alerte para conexões TCP sustentadas em portas não padrão, tráfego cifrado contínuo para domínios de DNS dinâmico e qualquer comunicação com domínios .gov.br anômalos — o BREEZE COMET usa a reputação deles para esconder o C2. A correlação no SIEM entre beaconing de rede e escrita em chaves de registro costuma ser o primeiro sinal de uma infecção em andamento.
Higiene de e-mail e navegador. Treine a equipe para reconhecer phishing e bloqueie anexos ativos no gateway: arquivos .XLAM, HTA, OneNote e pacotes compactados com senha são os vetores preferidos. Mantenha Office, navegadores e o WinRAR atualizados — as campanhas exploram CVEs antigos mas ainda eficazes, como CVE-2018-0802 e CVE-2025-8088.
Gestão de privilégios e segredos. Adote MFA resistente a phishing, aplique o princípio do menor privilégio e proteja como tesouro as credenciais mTLS (autenticação mútua por certificado digital) e as chaves de pipeline de CI/CD — o BREEZE COMET caça exatamente esses segredos para assinar transações Pix, STR e Boleto em nome da vítima. Segmente as redes de pagamento do resto da corporação e controle o acesso físico às redes de lojas, onde o grupo já conectou dispositivos rogue.
Resposta a incidentes. Ao suspeitar de infecção, isole o host da rede imediatamente, preserve logs e memória, revogue credenciais usadas na máquina e procure IOCs — hashes, domínios de C2 e chaves de registro — em todo o parque. Não pague resgate se o plugin de ransomware foi ativado: o objetivo primário do XWorm é acesso e exfiltração, e pagar não garante a recuperação.
Conclusão
O XWorm é o retrato do cibercrime moderno: um RAT de prateleira, modular, barato e fácil de operar, que escala de campanhas de phishing amadoras a operações sofisticadas como as do BREEZE COMET. A mesma ferramenta que rouba senhas de um usuário doméstico serve de backdoor persistente para fraudar o sistema de pagamentos brasileiro — e os dois cenários compartilham o mesmo conjunto de defesas: controle de execução, monitoramento de endpoint e rede, e proteção implacável de credenciais privilegiadas. Entender o protocolo, os plugins e os padrões de persistência do XWorm não é só um exercício de análise: é o que separa uma infecção silenciosa de um alerta contido nas primeiras horas.
Perguntas frequentes
O que é o XWorm e como ele funciona?
O XWorm é um remote access trojan (RAT) modular escrito em .NET, observado desde 2022. Ele dá ao atacante controle remoto total da máquina Windows infectada: executa comandos, rouba dados e carrega plugins sob demanda. A comunicação com o servidor de comando e controle é feita por TCP direto, em portas não padrão, com tráfego cifrado.
O XWorm é um ransomware?
Não exatamente. O XWorm é um RAT com um plugin de cifragem de arquivos que dá capacidade de ransomware ao operador, mas o roubo de dados e o acesso remoto são o objetivo principal. Em campanhas reais ele costuma aparecer como backdoor inicial de cadeias maiores, que terminam em roubo de credenciais, fraude financeira ou instalação de outros malwares.
Como o XWorm infecta uma máquina?
Os vetores mais comuns são phishing com anexos maliciosos, arquivos JavaScript disfarçados de documentos, downloads de software quebrado e, em campanhas mais sofisticadas, exploração de vulnerabilidades como CVE-2018-0802 no Equation Editor do Office e CVE-2025-8088 no WinRAR. O grupo BREEZE COMET usou sites de prefeituras comprometidos para hospedar os payloads.
O XWorm ainda está ativo em 2026?
Sim, e em expansão. O relatório ANY.RUN de 2025 registrou um aumento de 174% nas detecções, colocando o XWorm entre os três malwares mais vistos do ano. As versões v7.x são distribuídas ativamente por canais do Telegram, e rastreadores públicos observam centenas de servidores C2 ativos por semana, incluindo infraestrutura apontando para operações na América Latina.
Como detectar o XWorm na minha rede?
No endpoint, procure escrita em chaves de registro de persistência, tarefas agendadas novas, modificação de atalhos de inicialização e processos legítimos injetados. Na rede, alerte para conexões TCP em portas não padrão com beaconing regular e tráfego cifrado para domínios de DNS dinâmico. Regras YARA baseadas nos comandos de plugin e nos nomes internos do binário ajudam a identificar o arquivo na estática.
O XWorm é usado em ataques contra o Brasil?
Sim. O Google Threat Intelligence Group e a Mandiant documentaram o uso de backdoors XWorm pelo grupo BREEZE COMET em ataques a instituições financeiras, varejo e e-commerce brasileiros desde 2024, com payloads hospedados em sites de prefeituras comprometidos e persistência via atalhos de inicialização. O objetivo final era fraudar Pix, STR e Boleto com centenas de transferências fraudulentas.
Dá para remover o XWorm manualmente?
A remoção manual é arriscada porque o malware se copia para locais persistentes, cria chaves de registro e pode injetar código em processos legítimos, deixando resíduos. O recomendado é isolar o host da rede, remover com uma solução de EDR confiável e, depois, trocar todas as senhas usadas na máquina. Se houver plugin de ransomware ativado, não pague: a recuperação não é garantida.
Quem desenvolve e vende o XWorm?
O XWorm nasceu como malware-as-a-service (MaaS) vendido por um desenvolvedor conhecido como XCoder, com assinaturas por níveis no Telegram e em fóruns do submundo. Após o sumiço do criador em 2024, versões quebradas (cracked) passaram a circular abertamente e a v6.0 ressurgiu em junho de 2025 anunciada por um novo operador. As versões v7.x seguem vendidas como commodity de alto nível no Telegram.
Fontes e leituras adicionais
- Google Cloud Threat Intelligence / Mandiant — Financially Motivated Threat Actor BREEZE COMET Targets Brazil — 01/09/2026
- Cyber Security News — BREEZE COMET Hackers Use AI-Assisted Malware to Target Brazil Banks — 02/09/2026
- Trellix — Malware-as-a-Service Redefined: Why XWorm is outpacing every other RAT in the underground malware market — 12/03/2026
- Fortinet FortiGuard Labs — Deep Dive into New XWorm Campaign Utilizing Multiple-Themed Phishing Emails — 10/02/2026
- Trellix — XWorm V6: Exploring Pivotal Plugins — 02/10/2025
- Huntress — XWorm Malware: Analysis, Detection, Removal — 11/07/2025
- Cofense — The Rise of XWorm RAT: What Cybersecurity Teams Need to Know Now — 13/03/2025
- Derp — XWorm Malware Profile & 7d C2 Tracker — 04/09/2026