BREEZE COMET: análise técnica do grupo que invade bancos brasileiros com malware sob medida e IA

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BREEZE COMET: análise técnica do grupo que invade bancos brasileiros com malware sob medida e IA

Rodrigo ColissiRodrigo Colissi
04 de setembro de 202617 min de leitura
CibercrimesMalwareThreat Intelligence

Resumo: BREEZE COMET — o grupo hacker que invade instituições financeiras brasileiras desde 2024 — combina malware sob medida (REALBREEZE, COBALTSPIN, LIGHTPAINT, MILDFROST, KICKPLATE e BOATBEAM) com scripts gerados por IA generativa para executar transferências fraudulentas pelos canais legítimos do Pix, STR e boleto. Neste artigo técnico, você vai percorrer a cadeia de ataque completa, entender o papel da IA na operação e conferir defesas práticas para instituições financeiras, fintechs e varejo.

Pré-requisitos

Para acompanhar esta análise com profundidade, você vai precisar de:

  • Conhecimento básico de redes TCP/IP, Active Directory (serviço de diretório da Microsoft usado para autenticação e autorização em redes Windows) e de ambientes Linux e Windows corporativos;
  • Familiaridade com o ecossistema de pagamentos brasileiro: Pix, STR, boleto e RSFN (Rede Nacional do Setor Financeiro, a infraestrutura que interliga instituições financeiras no país);
  • Ferramentas de análise de malware e tráfego, como YARA (linguagem de regras para identificar amostras de malware por padrões), Wireshark (analisador de tráfego de rede) e Sysmon (ferramenta de monitoramento avançado do Windows);
  • Como contexto introdutório, leia a notícia Grupo hacker BREEZE COMET usa malware assistido por IA para atacar bancos brasileiros, que resume a operação para quem está chegando agora ao tema.

Passo a passo: a cadeia de ataque em ação

Para entender a cadeia de ataque, é preciso conhecer o alvo: o núcleo de pagamentos brasileiro — Pix (sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central — autoridade monetária brasileira), STR (Sistema de Transferência de Reservas, usado em transferências entre instituições) e boleto (método de pagamento amplamente usado no Brasil). O grupo não ataca contas de pessoas físicas: invade organizações autorizadas a enviar transações pela RSFN — bancos, processadoras de pagamento, fintechs, exchanges e varejistas. Para isso, ele precisa de acesso à RSFN, de credenciais mTLS (autenticação mútua por certificado digital usada para assinar as mensagens transacionais) e de persistência em múltiplas contas do Active Directory e da nuvem da vítima.

Acesso inicial: engenharia social e infraestrutura confiável comprometida

O primeiro passo varia conforme a vítima. Nos comprometimentos mais antigos, observados em 2024, o grupo usou password spraying (tentativa de login com senhas comuns em várias contas ao mesmo tempo) e chamadas de voz se passando por equipes de TI — o chamado vishing — para convencer funcionários a instalar ferramentas de acesso remoto como AnyDesk (software de acesso remoto amplamente usado no suporte técnico).

Em meados de 2025, o BREEZE COMET passou a usar sites de prefeituras brasileiras comprometidos para hospedar as cargas maliciosas: infostealers (malwares que roubam credenciais e dados) disfarçados de documentos fiscais, como o ComprovantePDF.exe, e o backdoor XWORM, disfarçado de atualização do sistema. O uso de domínios .gov.br comprometidos é estratégico: o tráfego para esses domínios costuma passar por filtros de reputação de rede, e o grupo também passou a replicar a tática em domínios municipais de Nigéria, Paraguai, Gana e Venezuela. Em paralelo, o grupo conectou hardware rogue (dispositivos físicos não autorizados) diretamente nas redes de lojas de varejo para entrar no ambiente corporativo, e explorou vulnerabilidades em servidores JBoss (plataforma de aplicações Java empresarial) para obter acesso inicial.

Escalação de privilégios e reconhecimento interno

Em seguida, já dentro da rede, o grupo executa reconhecimento com utilitários públicos como Impacket (coleção de scripts Python para interagir com protocolos do Windows), ADRecon e ADVipscan, muitas vezes baixados do GitHub e executados em memória via PowerShell para escapar da detecção. O grupo também desenvolveu o REALBREEZE, um utilitário customizado de brute-force (tentativa exaustiva de senhas) no LDAP (protocolo de diretórios do Active Directory).

Um diferencial do BREEZE COMET é o foco em ambientes de desenvolvimento e nuvem: ele minera pipelines de CI/CD (integração e entrega contínuas, usadas para automatizar deploys) para roubar credenciais embutidas, chaves de API e tokens de acesso altamente privilegiados. Scripts customizados varrem arquivos de hosts e variáveis de ambiente atrás de credenciais mTLS e certificados administrativos para autenticar contra os sistemas bancários centrais — com termos de busca como "boleto", "cnab", "remessa", "webhook.*pix" e "instant.*payment".

Movimentação lateral através de redes segmentadas

Para atravessar redes financeiras segmentadas sem disparar firewalls internos, o grupo usa o COBALTSPIN, um túnel escrito em Rust que estabelece um proxy reverso SOCKS5 (protocolo que encaminha tráfego de rede de forma genérica) sobre WebSocket (protocolo de comunicação bidirecional sobre HTTP). O COBALTSPIN roteia o tráfego entre o servidor de comando e controle (C2) e os alvos internos, permitindo que a movimentação lateral continue mesmo contra firewalls de perímetro, sem depender de mecanismos de persistência embutidos que chamariam atenção. Para navegar entre hosts, o grupo abusa de protocolos padrão, sequestrando contas de serviço para iniciar sessões RDP (Remote Desktop Protocol, acesso remoto ao Windows) e executar comandos via SMB (protocolo de compartilhamento de arquivos da Microsoft).

Persistência com backdoors multi-linguagem

Por fim, para manter o acesso, o grupo implanta uma arquitetura redundante de backdoors em várias linguagens, projetada para sobreviver a reinicializações e a tentativas de remoção. O quadro completo está na seção de explicação técnica, mas vale destacar: backdoors em Java, Nim e Golang, túneis DNS, VPNs legítimas instaladas de forma automatizada e até pods maliciosos no Kubernetes (orquestrador de contêineres) para roubar segredos da nuvem — exfiltrados para sites públicos de anotações como o dontpad[.]com. O grupo ainda desativa o Windows Defender com comandos diretos do PowerShell e apaga logs de eventos para dificultar a investigação forense.

A execução da fraude em massa

Com acesso aos sistemas financeiros centrais via COBALTSPIN e contas privilegiadas, o grupo executa a missão final: entre 24 e 48 horas após estabelecer acesso aos aplicativos bancários, ele dispara duas ondas de centenas de transferências fraudulentas, usando os canais legítimos (Pix, STR e boleto) em nome da organização vítima. Em seguida, limpa os logs dos hosts comprometidos e apaga os diretórios criados durante a invasão. Segundo a Mandiant, o grupo já executou com sucesso pelo menos um golpe de dezenas de milhares de dólares.

Explicação técnica: TTPs, toolkit e o papel da IA

O toolkit sob medida

O BREEZE COMET evoluiu de um usuário de ferramentas comerciais de acesso remoto (RMM) para um desenvolvedor de malware multi-linguagem. A tabela abaixo resume as peças principais do arsenal, conforme a análise do Google Threat Intelligence Group (GTIG):

FerramentaLinguagemFunção na operação
REALBREEZEC++Brute-force customizado no LDAP para escalar privilégios no Active Directory
COBALTSPINRustTúnel evasivo com proxy reverso SOCKS5 sobre WebSocket, usado para movimentação lateral
LIGHTPAINTJavaInstala uma VPN legítima (SoftEther) e configura persistência automática, adicionando regras no firewall do Windows e apagando logs da VPN
MILDFROSTJavaBackdoor passivo escondido dentro do processo da JVM; usa tunelamento DNS como C2 de reserva
KICKPLATENimSe disfarça de Windows Update Health Tools; controla tuneleiros SOCKS5, altera chaves de registro e serviços
BOATBEAMGolangInicia um falso servidor IIS HTTPS na porta 443, escondendo o tráfego de C2 atrás de um servidor web legítimo

Além dos backdoors, o grupo usa ferramentas públicas de pós-exploração (Impacket, ADRecon, ADVipscan, Netcat) e abusa de mecanismos nativos do Windows, como tarefas agendadas executadas como SYSTEM e atalhos .lnk em pastas de inicialização, para reforçar a persistência.

O papel da IA generativa e da agentic AI

O uso de IA é um dos aspectos mais relevantes da operação. A Mandiant encontrou evidências de que o BREEZE COMET usa modelos de linguagem (LLMs) — os modelos por trás de assistentes como ChatGPT — para acelerar a criação de scripts de reconhecimento de rede, validação de credenciais, implantação em massa, pivôs específicos por vítima e extração de dados. Os scripts recuperados são altamente funcionais, mas carregam marcas típicas de geração por IA: falta de idiossincrasias humanas, estruturas de código "desenroladas", comentários explicativos verbosos e cabeçalhos de execução padronizados:

#!/bin/bash
# RODA DENTRO DO 10.0.9.9 - DIRETO NA REDE INTERNA
 
echo "###############################################"
echo "### STEP 1: ENUM ALL LINUX (SSH PORT 22) ###"
echo "###############################################"
 
# Scan SSH em todos os ranges conhecidos
echo "=== SCANNING SSH PORTS ==="
> /tmp/ssh_open.txt

O relatório da Trend Micro sobre a campanha SHADOW-AETHER-064 — apontada pelo GTIG como sobreposição ao BREEZE COMET — vai além: agentes de IA (agentes autônomos que executam ações em sequência para cumprir um objetivo) foram usados para varrer portas 443 e 8443, testar injeções SQL, estabelecer túneis SOCKS5, criar contas de serviço não autorizadas e modificar políticas de grupo no Active Directory. Esse fenômeno é chamado de vibe hacking: em vez de usar ferramentas prontas, o atacante pede que o agente gere ferramentas e scripts sob demanda, o que reduz a detecção por assinaturas conhecidas. O BREEZE COMET exemplifica como o crime organizado está operacionalizando IA para comprimir o ciclo de desenvolvimento de malware e coordenar ataques sincronizados em múltiplos ambientes ao mesmo tempo.

Sobreposições: Plump Spider e SHADOW-AETHER-064

A Mandiant aponta que a atividade do BREEZE COMET se sobrepõe a operações publicamente reportadas como Plump Spider (divulgada pela Axur, que também observou vishing e tentativas de recrutar insiders nas vítimas) e SHADOW-AETHER-064 (divulgada pela Trend Micro). O SHADOW-AETHER-064 compartilha com o grupo brasileiro o foco em instituições financeiras, o uso de túneis SOCKS5 customizados e a geração dinâmica de ferramentas — e, ao contrário da campanha irmã SHADOW-AETHER-040 (que mirava governos mexicanos e operava em espanhol), o SHADOW-AETHER-064 opera em português. A convergência dessas observações reforça a avaliação de que ataques assistidos por IA contra o setor financeiro latino-americano estão virando tendência.

Indicadores de comprometimento (IOCs)

A coleção completa de IOCs está publicada pelo GTIG em uma coleção no VirusTotal para usuários registrados. Abaixo, os principais indicadores de arquivo:

Hash (SHA-256)Artefato
3b22605244dbace8f0c07c2c599f88c4b831bb07e9998b869a5da2759d27ceecCOBALTSPIN
2214907e696bad85bde1d90c943ef66e413d7a5c6d7596ced25b74441200439aREALBREEZE
c0db6ddd6222d02ad7490399d33c61ded0076f0037409dc8498924458646d78aMILDFROST
6d4012e0dd3b56a3e52857734fa0d582cdf3c56f0e5decc8005c882d1d1c6cebBOATBEAM
f139b4ca15feffb7a6633ec1a431c5c604b397576b56b5c863ae8fe4fa14db4fKICKPLATE
51fdd83b3737add7f3832bd0ad0b56863c0a8f7cf9bcc16fd787d1ae4b403ce6XWORM

E os principais indicadores de rede (domínios comprometidos usados para hospedar malware):

IndicadorNota
dontpad[.]comSite de anotações usado para exfiltração de dados
hxxps://procon[.]go[.]gov[.]br/ComprovantePDF[.]exeDomínio .gov.br comprometido para hospedar malware
hxxps://cmgovernadorluizrocha[.]ma[.]gov[.]br/Comprovantepdf[.]exeDomínio .gov.br comprometido para hospedar malware
hxxps://conseg[.]ssp[.]go[.]gov[.]br/ComprovanteBBpix[.]exeDomínio .gov.br comprometido para hospedar malware
hxxps://minacu[.]go[.]gov[.]br/ComprovantePDF[.]exeDomínio .gov.br comprometido para hospedar malware
hxxps://suporte[.]camaratunapolis[.]sc[.]gov[.]br/ti/1[.]exeDomínio .gov.br comprometido para hospedar malware
hxxp://suporte[.]ourinhos[.]sp[.]gov[.]br/files/s[.]zipDomínio .gov.br comprometido para hospedar malware
hxxps://www.mrtb[.]gov[.]ng/apps/attvpn[.]vipDomínio governamental da Nigéria comprometido
hxxps://sit[.]baer[.]gob[.]ve/r[.]exeDomínio governamental da Venezuela comprometido
hxxps://jmcov[.]gov[.]py/cxv[.]exeDomínio governamental do Paraguai comprometido

Atenção: os domínios acima foram comprometidos por terceiros e usados como infraestrutura do grupo. Bloquear o domínio inteiro pode causar dano colateral a serviços legítimos — a prioridade deve ser monitorar o acesso a esses hosts e investigar qualquer execução dos binários listados.

Detecção com YARA

O GTIG publicou regras YARA públicas para caçar os artefatos do grupo. Um exemplo, para o brute-forcer REALBREEZE, com strings em português embutidas no binário:

rule M_Utility_REALBREEZE_2 {
    meta:
        author = "Google Threat Intelligence Group"
 
    strings:
        $s1 = "IP/REDE" wide
        $s2 = "SENHA" wide
        $s3 = "U\x00S\x00U\x00\xc1\x00R\x00I\x00O\x00:" wide
        $s4 = "Arquivo de Texto (*.txt)|*.txt" wide
        $s5 = "get_SamAccountName"
        $s6 = "get_txtHostname"
 
    condition:
        uint16(0) == 0x5A4D
        and all of them
}

Como se proteger

Controle de aplicação e bloqueio de RMM não autorizados. Imponha controle de aplicação — como WDAC no Windows, Gatekeeper/MDM no macOS ou fapolicyd no Linux — para bloquear execução em diretórios graváveis por usuário (como %APPDATA%, ~/Downloads e /tmp). Em hosts Linux, monte /tmp e /home com a flag noexec (que impede a execução de binários na partição) e audite o inventário de software para alertar sobre execução de ferramentas RMM portáteis e registro de serviços não autorizados.

Controle de acesso à rede e endurecimento físico de filiais. Implante 802.1X (autenticação por porta de rede) nas portas Ethernet físicas de filiais e lojas para impedir que dispositivos não autorizados obtenham IP ou comuniquem em sub-redes internas — resposta direta ao hardware rogue observado no varejo. Desative portas de switch não utilizadas, aplique limite de MAC e restrinja fisicamente o acesso a salas de rede e tomadas públicas.

Fortalecimento de Active Directory e credenciais. Restrinja utilitários administrativos como ntdsutil.exe e vssadmin.exe, e aplique o modo de linguagem restrita do PowerShell (Constrained Language Mode), o log de blocos de script (Event ID 4104) e a AMSI (Interface de verificação antimalware) para detectar execução em memória de scripts de reconhecimento. Exija MFA resistente a phishing (autenticação multifator à prova de golpes de interceptação) em todos os portais externos, com controles de bloqueio por tentativas.

Inspeção profunda de pacotes e controle de tráfego de saída. Não confie em listas de reputação ou allowlists de TLD .gov: faça descriptografia SSL/TLS e inspeção profunda de pacotes (DPI) no tráfego web de saída. Bloqueie portas e protocolos não essenciais de egresso, restrinja utilitários de tunelamento (como Chisel e GSocket) e segmente a rede para bloquear tráfego lateral SMB (porta 445) e RDP (porta 3389) entre estações e servidores.

Isolamento de workloads Kubernetes e nuvem. Aplique RBAC (controle de acesso baseado em papéis) com privilégio mínimo para contas de serviço no Kubernetes, bloqueie contêineres privilegiados com admission controllers (OPA Gatekeeper ou Kyverno) e aplique políticas de rede de egresso para impedir que pods acessem plataformas públicas não autorizadas — o grupo é ativo em roubar segredos da nuvem.

Gestão de segredos e microssegmentação dos sistemas financeiros. Adote um cofre de segredos centralizado (como HashiCorp Vaultferramenta de gestão de segredos e chaves de acesso) com logging, elimine chaves em texto puro no código e implemente microssegmentação baseada em identidade (camada 7) para as workloads financeiras. Limite o acesso administrativo exclusivamente a jump hosts dedicados via PAM (gestão de acesso privilegiado).

Detecção específica para a cadeia de fraude. Monitore buscas anômalas em arquivos e variáveis de ambiente por termos como "boleto", "cnab", "remessa" e "pix", alertas de execução de PowerShell com download de conteúdo remoto, conexões DNS para sites de anotações (como dontpad), criação de túneis SOCKS5/WebSocket e acessos inesperados a aplicativos bancários centrais — o período de 24 a 48 horas entre o acesso e a onda de transferências é a janela de ouro para interromper a fraude.

Conclusão

O BREEZE COMET representa uma mudança de paradigma no cibercrime latino-americano: a transição da fraude bancária oportunista de varejo para intrusões diretas no núcleo do sistema financeiro — os switches de pagamento e a infraestrutura de pagamentos instantâneos. A combinação de malware customizado multi-linguagem, infraestrutura confiável comprometida (domínios .gov.br) e geração de código por IA mostra um grupo que comprime o ciclo de desenvolvimento e coordena ataques sincronizados em múltiplos ambientes.

Para o defensor, a lição é dupla: o perímetro tradicional — firewalls e antivírus — não é suficiente quando o atacante atravessa a rede via túneis evasivos e abusa de credenciais legítimas, e a janela de detecção é curta. Controle de aplicação, segmentação, microssegmentação dos sistemas de pagamento, gestão de segredos e monitoramento específico da cadeia transacional são as defesas com maior retorno. E a expansão da infraestrutura do grupo para outros países da América Latina e África indica que essa é uma ameaça em crescimento, não um episódio isolado.

Perguntas frequentes

O que é o BREEZE COMET?

É um grupo hacker financeiramente motivado, rastreado pelo Google Threat Intelligence Group como BREEZE COMET (antes UNC5669). Desde 2024, ele invade instituições financeiras, fintechs, varejistas e processadoras de pagamento brasileiras para executar transferências fraudulentas pelos canais legítimos (Pix, STR e boleto), usando malware customizado e scripts gerados por IA.

Quem são os alvos do grupo?

Organizações autorizadas a enviar transações pela Rede Nacional do Setor Financeiro (RSFN): bancos, processadoras de pagamento, exchanges, varejistas, fintechs e provedores de software bancário. O grupo também demonstrou interesse em expandir sua infraestrutura para outros países da América Latina e África.

Como o BREEZE COMET invade as empresas?

Por múltiplos vetores: password spraying, chamadas de voz se passando por suporte de TI (vishing) para instalar ferramentas de acesso remoto, sites de prefeituras comprometidos hospedando malware disfarçado de documentos fiscais, hardware rogue conectado a redes de lojas e exploração de servidores JBoss vulneráveis.

O que é o COBALTSPIN?

É um túnel customizado escrito em Rust que cria um proxy reverso SOCKS5 sobre WebSocket. Ele roteia o tráfego entre o servidor de comando e controle e os sistemas internos da vítima, permitindo movimentação lateral mesmo com firewalls internos segmentados, sem persistência embutida que chame atenção.

Como o grupo usa IA nos ataques?

A Mandiant encontrou evidências de uso de LLMs para gerar scripts de reconhecimento, validação de credenciais, implantação em massa e extração de dados. Relatórios da Trend Micro sobre a campanha sobreposta SHADOW-AETHER-064 mostram agentes de IA autônomos gerando ferramentas e executando tarefas de invasão sob demanda — o chamado vibe hacking.

Como o grupo executa as transferências fraudulentas?

Ele obtém credenciais mTLS e certificados administrativos necessários para autenticar contra os sistemas bancários centrais, acessa os aplicativos financeiros via COBALTSPIN e contas privilegiadas e dispara ondas de centenas de transações em nome da organização vítima em 24 a 48 horas, limpando os logs em seguida.

O que é o SHADOW-AETHER-064 e como se relaciona com o BREEZE COMET?

É uma campanha identificada pela Trend Micro que usa agentes de IA contra instituições financeiras brasileiras, operada por falantes de português. O Google Threat Intelligence Group aponta sobreposição entre a atividade do SHADOW-AETHER-064 e a do BREEZE COMET, embora a relação exata entre os dois seja incerta.

Quais indicadores de comprometimento devo procurar?

O GTIG publicou uma coleção completa de IOCs no VirusTotal. Os principais incluem os hashes SHA-256 dos artefatos (REALBREEZE, COBALTSPIN, LIGHTPAINT, MILDFROST, KICKPLATE, BOATBEAM, XWORM) e domínios governamentais comprometidos no Brasil, Nigéria, Venezuela e Paraguai usados para hospedar malware.

Como se proteger contra esse tipo de ataque?

As defesas com maior retorno são: controle de aplicação (WDAC, Gatekeeper, fapolicyd), autenticação 802.1X em portas físicas, endurecimento do Active Directory com Constrained Language Mode e MFA resistente a phishing, inspeção SSL/TLS do tráfego de saída, microssegmentação dos sistemas financeiros, gestão de segredos centralizada e monitoramento específico da cadeia transacional.

O BREEZE COMET já atua fora do Brasil?

Sim. Além dos domínios .gov.br comprometidos, o grupo replicou a tática de infraestrutura em domínios municipais da Nigéria, do Paraguai, de Gana e da Venezuela, o que sugere intenção de expandir sua operação para outros países da América Latina e da África.

Fontes e leituras adicionais

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